27.4.17

Uma Mulher Chamada Guitarra
Vinicius de Moraes

Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.

0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina - viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo - o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.

Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.

Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.

Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Ponha-se num céu alto uma Lua tranquila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranquila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Texto extraído do livro "Para Viver um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 14.

23.4.17

Aniversário de vida e morte de Shakespeare

  Em 23 de abril de 1564 nascia o famoso dramaturgo inglês William Shakespeare. Nesse mesmo dia, 52 anos depois, em 1616, Shakespeare morria em Stratford. O autor produziu cerca de 38 peças, 158 sonetos e diversos outros poemas, além de ser creditado pelo Oxford English Dictionary por introduzir quase 3,000 palavras na língua inglesa. Os textos de Shakespeare podem ser analisados por variados vieses, para tratar diferentes temas. No entanto, o bardo nem sempre trabalhou sozinho, ele fez algumas colaborações com autores contemporâneos, como John Fletcher, Thomas Middleton e George Wilkins. Há também, estudiosos que afirmam que Shakespeare não escrever todos os textos que são atribuídos a ele, porém devido à inexistência de direitos autorais na época (e à própria incerteza da História em geral) é impossível obter alguma verdade absoluta. Mesmo com tantas controvérsias e polêmicas em torno do autor, devido à grande riqueza poética, uso da linguagem e profundidade filosófica sua obra ainda é lida, estudada, e serve como base e inspiração para produções contemporâneas mais de 400 anos depois de suas publicações originais, a exemplo dos vários filmes baseados em peças shakespeareanas com títulos homônimos, é também possível citar algumas de suas releituras mais famosas, o filme 10 coisas que odeio em você (1999), estrelado por Heath Ledger e Julia Stiles, baseado na comédia  A Megera Domada; Ela é o cara (2006) releitura de Noite de Reis (Twelfth Night). Foram produzidas versões das peças do bardo em histórias em quadrinho, animações japonesas e diversas outras mídias, para transpor as obras do cânone em meios acessíveis para todos.


Versão quadrinizada de Macbeth vendida pela editora Saraiva.

Pôster original do filme 10 coisa que odeio em você (1999).

E por fim, apenas para descontrair, uma versão em rap, da clássica tragédia Hamlet.
https://www.youtube.com/watch?v=qjMKBCyf2pQ



11.4.17

Língua – Vidas em Português

      O documentário Língua – Vidas em Português traz as diversas maneiras em que o Português é falado ao redor do mundo. Conta com participação de grandes pessoas como João Ubaldo Ribeiro, José Saramago, Matinho da Vila e, mostra relatos de pessoas de países não falantes do Português como Macau na China, Goa na Índia, e de países falantes de Português como Brasil, Portugal, Moçambique. 
      O Português é falado de diversas maneiras em todos os países. Percebemos a variação diatópica, quando o padeiro Rosário Macário falante do Português em Goa fala “prefer” e o falante de Português no Brasil fala “prefiro”. Assim, como o sotaque do Dinho falante do Português em Moçambique se difere com o Sotaque de qualquer brasileiro. Por isso, José Saramago diz: “Não há uma língua portuguesa: há línguas em português”.
      Como diz Castilho (2010, p.198), “de todas as variedades do português, a variedade geográfica é a mais perceptível.” Percebemos bastante isso no documentário, pois como foi gravado em vários países, há uma grande variedade geográfica, como por exemplo, a fala do cantor brasileiro vai ser diferente da fala da cantora portuguesa.
      A variação diastrática é perceptível ao compararmos a maneira em que José Saramago, escritor ilustre de Portugal, fala com a maneira que Dinho, o menino que mora no Hotel, fala. Pois, Saramago usa a norma padrão em sua fala, já o Dinho usa  a maneira descritiva.
      O documentário é indicado para quem deseja ter novos conhecimentos sobre as diversas maneiras que nossa língua é falada em países tão diferentes do nosso. Esse documentário se torna ainda mais interessante por filmar pessoas no seu dia-a-dia. Portanto, recomenda-se não apenas para acadêmicos de Letras, mas como para qualquer pessoa falante do Português e que tenha curiosidade de saber como ele é falado nos outros países. Assim, este filme contribui na ampliação de nossos conhecimentos sobre variações linguísticas e também sobre outras culturas, pois, muitas vezes, nos prendemos em que o português é apenas falado no Brasil e em Portugal.

LOPES, Victor; PERREIRA, Renato; WELLER, Suely; MARINHO, Rômulo;. Língua: Vidas em Português. Produção de Renato Pereira e Suely Weller, direção de Victor Lopes e Rômulo Marinho. Brasil/Portugal, Paris Filmes Lk Tel. 2002. DVD ou disponível em    https://www.youtube.com/watch?v=sTVgNi8FFFM, 105 min. Longa metragem. Som direto.

 
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