13.1.12

Obras vestibular Unicentro: Viagem no Espelho-Helena Kolody




Viagem no Espelho, de Helena Kolody, reúne livros publicados pela autora, de 1941 a 1986. Nessa publicação, encontram-se vários poemas que têm como assunto a própria poesia (metapoesia). O tempo constitui "a nota mais relevante da obra“.
Obra representativa da poesia breve, portanto, nela, predominam os poemas curtos. Praticante do haikai, forma de poesia japonesa, pequeno poema de três versos, com cinco, sete, e cinco sílabas poéticas sucessivamente. Helena Kolody tem o poder de transformar sua sabedoria de vida em poemas luminosos, ainda que seus temas possam ser densos e mesmo trágicos: o amor, a morte, o tempo, o envelhecimento, a banalização da vida, a tecnologia destrutiva e a falta de fraternidade entre os seres humanos.
Helena Kolody é uma das figuras mais importantes das letras paranaenses, embora ainda não haja gravado o seu nome no quadro mais amplo do reconhecimento nacional. Poetisa de atitudes discretas, alheia às autopromoções
Pelo tom da voz, pela delicadeza dos sentimentos, pela autenticidade lírica e pela temática, ela é, com certeza, a poetisa representativa de seu estado. E isso não apenas pela maturidade regional, mas também por haver acrescentado a voz do imigrante à temática da poesia brasileira.
O amor fica sendo só um sentimento, um sonho, e Helena Kolody soube muito bem transformar esses sentimentos em palavras melodiosas, o que levou alguns poemas seus a serem musicados. São versos carregados de um lirismo puro, que embalam reminiscências de amores de outrora
Helena Kolody é a poeta do cotidiano, das realidades simples e comuns, interpretadas por sua sensibilidade e lirismo contagiante e libertador. Sua poesia, profundamente lírica, com acentos existenciais, transparentes, revela uma construção poética alicerçada a partir das coisas simples e cotidianas.




Obras vestibular Unicentro: Jangada de Pedra- José Saramago



Obra publicada em 1986, José Saramago  narra uma série de acontecimentos fantásticos que trata da separação da Península Ibérica que navega à deriva no Atlântico, indo inicialmente em direção aos Açores.
Dividida em 23 capítulos, a obra preserva o português lusitano  destacando-se expressões populares típicas de Portugal. O autor se utiliza de períodos e parágrafos muito. Há uma total  eliminação dos sinais de pontuação (usando predominantemente a vírgula e o ponto).
O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos: Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso de uma pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos, Pedro Orce e o tremor da terra e Maria Guavaira e o fio de lã, onde são interligados mais adiante na narrativa. O elemento desencadeador da história está centrado na ação desses cinco personagens que se encontram em locais diferentes, quatro em Portugal e um na Espanha: Em Portugal, com Joana Carda riscando o chão com uma vara de negrilho, Joaquim Sassa atirando uma pesada pedra ao mar, José Anaiço passando a ser acompanhado por um gigantesco bando de pássaros, Maria Guavaira começando a desfazer um pé de meia e, finalmente, na Espanha, Pedro Orce batendo os pés no chão. A junção desses acontecimentos, curiosa e inexplicavelmente, dá início ao rompimento geológico dos Pirineus, fazendo com que Portugal e Espanha se desliguem totalmente da Europa e passem, tal qual uma descomunal jangada de pedra, a navegar pelo oceano afora, rumo a um novo destino.
O cão Ardent é também uma das personagens que vai compor a caravana composta pelas cinco personagens, uma vez que também sentiu o estalar da pedra. Os cinco personagens principais vão se encontrando aos poucos, primeiro Joaquim Sassa com José Anaiço, em seguida os dois encontram-se com o espanhol Pedro Orce. Aos três, junta-se Joana Carda, a qual une-se amorosamente a José Anaiço. Depois desses encontros, é a vez do cão Ardent aparecer, com um fio de lã azul constantemente à boca, e os conduzir até Maria Guavaira, que enamora-se por Pedro Sassa. Dessa forma, os seis iniciam uma viagem pelo interior da Península Ibérica a qual os levará à descobertas de novos horizontes, tanto pessoal quanto coletivamente.
O tempo da narrativa é psicológico. Embora haja referências cronológicas, elas não predominam, além de serem em grande parte imprecisas.
José Saramago sempre foi um escritor consciente da realidade social do seu país e da sua gente, toda sua obra está marcada pela crítica à realidade nacional de um povo empobrecido e atrasado socialmente. Saramago parece acreditar, e isso pode ser comprovado em suas inúmeras entrevistas e debates no qual participou, que Portugal e Espanha fazem parte de uma outra face da Europa, menos valorizada. Daí a separação dos dois países.

A própria metáfora “Jangada de Pedra” remete a dois modelos de existência: um deles associado ao movimento, dinamismo, típico da jangada como meio de travessias marítima e o outro o da pedra como elemento estático, parado, que não vai para frente, por estar preso ao chão. A dinâmica do movimento está ligada à ruptura da península com a Europa, a partir de processos surpreendentemente inexplicáveis, como riscar o chão com uma vara, atirar uma pedra ao mar, pisar no chão etc.

O espaço é a Península Ibérica vagando pelo Oceano Atlântico.

PERSONAGENS PRINCIPAIS

Logo no início do romance, o narrador destaca estrategicamente as cinco personagens mais o cão que as guiará e os acontecimentos sobrenaturais relacionados a cada uma, e anuncia a ruptura da Península, a qual todos estão ligados. A narrativa é tomada por um clima de incertezas e pressentimentos apocalípticos.
 

Joana Carda - Portuguesa divorciada que mora na região de Ereira.

Joaquim Sassa - Português (Porto), trabalha em um escritório, estando de férias por uma praia ao norte de Portugal.


José Anaiço - Português (Ribatejo) com o ofício de professor que fica sendo acompanhado constantemente por uma nuvem de estorninho.


Pedro Orce - Próximo dos sessenta anos, espanhol da região de Orce, farmacêutico no vilarejo de Venta Micena.


Maria Guavaira - Habitante da região rural da Galiza, puxa um fio azul de lã de uma meia que se multiplica exageradamente em comprimento.

COMENTÁRIOS GERAIS

Em A jangada de pedra, o autor exclui literalmente a Península Ibérica da Europa valendo-se do discurso irônico e do realista mágico, mas não com o objetivo de dessacralizar a história oficial, como fez em Memorial do convento, mas para questionar sobre o porvir, dialogando com antecedentes históricos, expressos na intertextualidade, por exemplo, com Camões, e sugerindo uma solução para o futuro, que se realiza na configuração mítica de um novo mundo.


Traz uma crítica afiada e agressiva a todo este contexto, na obra o autor apela para uma faceta onde se identifica um traço que chega a partir para o lado surreal da literatura: a divisão da Península Ibérica do restante da Europa, onde Portugal e Espanha desprendem-se do continente e começam a “navegar” pelos oceanos de forma aparentemente errante.


A rigor vemos que não é só Portugal que adota esta postura de “separação”. A Espanha também passa por uma situação similar no continente Europeu, tendo sido considerado um país hoje periférico e sendo ontem também dona de um império colonizador e hoje sofrendo os mesmos dramas portugueses.


A separação se dá através de um ato banal, uma personagem ao traçar uma linha no chão com uma vara de madeira cria assim uma analogia com uma fronteira imaginária no mapa, considerado mutante da Europa e a partir desta fenda ocorre a separação da península. O primeiro passo deste estudo é identificar porque a Espanha é incluída na separação.

Não basta justificar a inclusão apenas pela similaridade das situações históricas e políticas, mas há uma forte identificação entre as culturas de ambos, sendo assim explícita quando o ponto de interseção entre os dois países são as línguas, ambas provenientes do Latim e com traços fonéticos de alta similaridade, sendo a língua espanhola e a língua portuguesa compreensíveis até determinado ponto entre os dois povos, trazendo uma espécie de “irmandade”. Outro ponto interessante é que após a separação a idéia de país torna-se menor em relação à idéia de península, pondo os espanhóis e os portugueses como habitantes de um lugar comum, verdadeiros conterrâneos passando pelas mesmas dificuldades e conflitos.

O desprender da Península do continente europeu mostra uma espécie de recomeço na vida dos iberianos (nomenclatura adotada neste estudo para se identificar os espanhóis e portugueses) que, repetindo a história voltam a se lançarem ao mar, mesmo que de uma forma inusitada a península assume o papel das naus que no passado trouxeram o esplendor do império aos países em questão, mostrando uma esperança em relação ao retorno dos tempos de glória da idade moderna. No seguinte trecho podemos observar a identificação cultural e histórica entre os dois países:

“É que, concluamos o que suspenso ficou, por um grande esforço de transformar pela palavra o que talvez só possa pela palavra possa a vir ser transformado, chegou o momento de dizer, agora chegou, que a Península Ibérica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual, dez súbitos metros, quem me acreditará, abriram-se os Pireneus de cima a baixo como se um machado invisível tivesse descido das alturas, introduzindo-se nas fendas profundas, rachando pedra e terra até o mar, agora sim, poderemos ver o Irati caindo, mil metros, com o infinito, em queda livre, abre-se ao vento e ao sol, leque de cristal ou cauda de ave-do-paraíso, é o primeiro arco-íris suspenso pelo abismo, a primeira vertigem do gavião que com as asas molhadas paira, tingidas de sete cores.


Nesta passagem, construída com muitos elementos simbólicos, fica claro o início da jornada da “Jangada” constituída pelos dois povos pelo mar. Jornada esta com um início mítico, passando pelo portal de arco-íris em direção ao sol (símbolo máximo da esperança) relembrando a tradição mítica da fundação de Portugal. Também nesta passagem abrir-se ao vento e ao sol tem um significado implícito de retornar as origens da formação da cultura lusa e de buscar novas terras como a tradição colonizatória do país, possuindo uma face heróica trazida da tradição camoniana épica e também uma forma de “deixar para trás” um continente viciado e recomeçar a pátria como um dia fez Vasco da Gama. Um questionamento tipicamente modernista como uma forma de se chegar às raízes das conquistas dos impérios e fortificação das monarquias nacionais com o fim de reaver a posição portuguesa no patamar mundial.

Toda obra remete-se às várias fases da literatura portuguesa, fases estas que se percebe o heroísmo e estoicismo do homem português exaltados. A tradição camoniana é uma das maiores inspiradoras do texto, trazendo assim um texto com forte apelo dramático e épico, com um aflorado teor epopéico escrito em prosa onde os personagens neste caso assumem um papel secundário sendo assim o “pano de fundo” do texto (a Península) o verdadeiro personagem principal.


A renovação dos países de línguas originárias do Latim remete-nos ao também passado de glórias do Império Romano. A história portuguesa e espanhola traz desde suas formações políticas esta relação com o imperialismo e a dominação. A Península assume o papel de um novo país/ império em busca de seu lugar. O vagar da península pelo oceano também traz dentro de si uma analogia com o expansionismo do latim e, no caso mais em primeiro plano de Portugal o retorno da navegação no sentido da descoberta do novo mundo.

Com o desenvolver do texto a idéia de país chega a se tornar completamente abafada em relação à idéia de Península (comunidade), posta como um novo lar deste novo povo que surge com a separação desta da Europa, o maior problema filosófico do pensamento literário moderno está explícito na seguinte passagem:

“O tempo é de férias, pode ir e voltar sem ter de pedir licença, agora nem o passaporte exigem na fronteira, mostra-se simplesmente o bilhete de identidade e é nossa a península.”

Na simples passagem acima nota-se que volta a haver uma relação afetiva entre o homem e sua terra natal. Agora causando furor mundial o fato da separação da Europa (e de uma certa forma também do resto do mundo) o homem ibérico volta a mostrar um certo orgulho de mostrar em sua documentação a sua nacionalidade, agora voltando a ser motivo de patriotismo e nacionalismo como antes fora, o projeto da revitalização da história e de retornar ao cume do mundo começa a se esboçar lentamente através deste pequeno ato de soberania: um cidadão respeitado pela sua nacionalidade, algo que o português sente falta e é preenchido no texto.

A nova nação ibérica é uma visão revolucionária dentro do contexto “velho mundo”. Uma forma de trazer para si esta superioridade é justamente na colonização cultural, onde uma forma de fazer com que este se realize é trazendo adeptos para esta nova nação. A exemplo do atual cenário mundial onde o visto permanente nos Estados Unidos é cobiçado (o Greencard) trazendo para o imigrante a possibilidade de uma dupla nacionalidade. A Península também traz para si seus imigrantes, não de uma forma propriamente dita, mas sim um novo pensamento de aproximação com este novo país.

“Os países da Europa, onde felizmente se tem verificado um certo abaixamento de tom na linguagem quando se referem a Portugal e Espanha, depois de séria crise de identidade com qual se debateram quando milhões de europeus resolveram declarar-se ibéricos (...) Quanto aos Estados Unidos da América do Norte, que assim por extensão inteira deverão ser sempre nomeados, apesar de terem mandado dizer que a fórmula de governo de salvação nacional não é do seu agrado, mas que enfim vá lá, atendo a circunstância, declaram-se dispostos a evacuar toda a população de Açores (...) ficando todavia para resolver mais tarde onde poderão ser instaladas estas pessoas, nos próprios Estados salvadores (...) e esse é o sonho secreto do Departamento de Estado do Pentágono, seria que as ilhas detivessem, mesmo que com alguns estragos, a península que assim ficaria fixada no meio do Atlântico para benefício da paz do mundo, da civilização ocidental e de óbvias conveniências estratégicas”.

O rico trecho acima mostra a aproximação dos Estados Unidos a Península. Visivelmente disposto a selar um acordo com o país que se aproxima denota-se um aumento na importância dos países em relação ao globo. Tanto mostrados na passagem dos possíveis acordo entre estados (já existe um reconhecimento desta natureza– estado independente- para a Península) até com o simples abaixamento no tom de voz dos outros povos, sinal de respeito e aceitação.


A relação com os Estados Unidos, a grande nação imperialista do mundo atual, funciona como uma espécie de acordo entre impérios, onde os EUA aceitam a anexação da península em seu território trazendo na justificativa uma pesada carga de ironia satirizando o estereótipo em relação ao pensamento do homem estadunidense, uma forma de manter a paz no mundo e em toda civilização ocidental (pretexto dos últimos acontecimentos no Iraque) e, usando o arquipélago de Cuba pra frear o avanço da península, usando um eufemismo “mesmo que com alguns estragos” para se referir a destruição do país, que, nesta visão satírica de imperialismo não passará de alguns estragos, tudo facilmente reparável e sem grande importância. Clara crítica ao pensamento considerado hermenêutico.


Nisto a longa viagem da península tem seu fim quando ao descer em direção das Américas a Península “ancora”, dando ao entendimento do leitor ter se estabilizado na costa do Novo Mundo, podendo até se especular (devido a sua vasta extensão costeira) que a Península teria se fixado na costa brasileira. Fato este que traria a Península a uma nova terra em desenvolvimento, com uma cultura mais aberta em relação ao purismo dos países europeus e com povos nascidos da miscigenação da colonização (e, diga-se de passagem, falantes das línguas portuguesa e espanhola) como uma forma de trazer à luz do homem português a ciência de que a língua, como um produto vivo do dinamismo cultural muda e sofre passa por mutações, não podendo ser amarrada em regras e preconceitos dogmáticos que tanto geram conflitos às mentes presas ao imperialismo medieval.


Assim a narrativa descreve o caos estabelecido na Península a partir do desgarramento, desde os problemas políticos, falta de alimentos, apagões até as alterações ecológicas. Trata-se de um prenúncio apocalíptico, dimensionado pelo descaso dos países europeus e pelos movimentos marítimos da “jangada”. O realismo mágico instaura-se já no primeiro capítulo, quando o narrador, instância importante na realização da categoria, antecipa de forma magistral os acontecimentos mágicos que vão se intensificar no decorrer de um enredo nada linear.


11.1.12

Obras do Vestibular Unicentro: Uma amor anarquista- Miguel Sanches Neto



Nincia Cecília Ribas Borges Teixeira 

Miguel Sanches Neto é escritor e crítico literário que passou a ser conhecido a partir dos anos 2000, quando se tornou um dos nomes mais representativos da nova literatura brasileira. Nascido em 1965, no interior do Paraná, Sanches Neto é um escritor eclético, que escreveu diversos gêneros. Formado em Letras e professor de Literatura Brasileira na Universidade Estadual de Ponta Grossa, ele também atua como crítico literário no jornal paranaense Gazeta do Povo e na revista Carta Capital.


A Obra Um Amor Anarquista é um romance histórico, ou seja, uma obra de literatura que aborda um período da história. A estrutura do romance é permeada por cartas escritas pelo fundador da colônia, o italiano Giovanni Rossi, sobre todos os aspectos relacionados a construção da colônia no Brasil.
Em Um Amor Anarquista, Miguel Sanches Neto conta, com incrível capacidade de persuasão, a história de um grupo de imigrantes italianos, que, no final do século XIX, na pequena cidade de Palmeira, no interior do Paraná, funda a Colônia Socialista Cecília, na qual tenta destruir o sistema tradicional da família e implantar o amor livre.
Idealizada por um militante anarquista italiano de nome Giovanni Rossi, a colônia Cecília constituiu-se na vivência prática de um ideal de liberdade. Como projeto, sua proposta era a de oferecer ao mundo uma prova da possibilidade de uma organização social onde a autoridade fosse inexistente. Motivado pela propaganda brasileira ao mercado de trabalho europeu, Rossi optou por fundar uma colônia no Brasil,acabou se instalando no Paraná, no município de Palmeira.  

Na liderança de Rossi, a Colônia Cecília foi composta, primeiramente, por 150 colonos. Após a construção das habitações coletivas e individuais, um dos primeiros problemas encontrados foi na divisão dos trabalhos: os artesãos fariam o que já faziam antes; mas os lavradores tiveram que reaprender sobre o plantio, por causa da diferença entre o solo brasileiro e italiano.
Após um ano de existência, a colônia passa por dificuldades sérias: pouca comida, ganância dos agricultores, famílias com muitas crianças e poucos trabalhadores, ciúmes que atrapalha a vida em conjunto; pais que impedem as filhas de praticar o amor livre, abandono dos jovens mais idealistas da colônia, sentindo-se frustrados, e querendo o barulho da cidade e o movimento do capitalismo; agricultores quebrando a estrutura anarquista por meio de votos, propriedade privada, etc.

Durante os anos de existência da colônia as ideologias anarquistas foram testadas. Apesar de os jovens adeptos do anarquismo estarem dispostos a fazer a experiência dar certo, as famílias já estruturadas não se adaptaram e, além disso, com suas cultura já estabelecida, não conseguiam seguir esses ideais. 
romance retrata o período de 1890 a 1894, no qual Giovanni Rossi lutou pela sobrevivência da Colônia Cecília, buscando novos adeptos, principalmente jovens dispostos a viver os princípios do anarquismo. Dessa forma, tentou tornar a colônia auto-suficiente, ou seja, fazer com que as necessidades dos moradores fossem supridas pela própria produção da colônia. Mas isso não aconteceu.

A conclusão de Giovanni para o fim da experiência da Colônia é de que uma sociedade anarquista é possível, uma vez que não exista laços familiares tradicionais, egoísmo e miséria, ou seja, que haja pessoas dispostas a trabalhar e viver pelo coletivo.
O processo de pesquisa de Um Amor Anarquista deu-se por meio de pesquisas a partir de um arquivo montado por um médico paranaense, Cândido de Mello Neto, que levantou a história da Colônia Cecília por um interesse familiar.
As principais dificuldades em se trabalhar a partir de um episódio histórico, e vertê-lo para a ficção, foram não fazer história, não defender uma tese. Ainda mais quando o tema é polêmico. O autor dedicou-se a este episódio com intenções literárias, sem nenhuma preocupação em defender ou refutar o anarquismo ou o socialismo. O que lhe chamou a atenção foi o drama humano vivido pelos personagens
O que mais impressionou o autor na experiência anarquista da Cecília e que o levou a escrever este romance foi o amor livre praticado numa província brasileira, numa região agrícola, em fins do século XIX. Ele sentiu na hora que poderia contar toda a aventura da colônia a partir daquele casamento poliândrico, em que uma mulher recebia contemporaneamente mais de um homem. Era uma coisa tão avançada para a época que ainda hoje causa espanto.
E também o destino final de Giovanni Rossi, que volta para a Itália e termina seus dias com a mulher que lhe serviu como experiência sociológica, criando como sua a filha nascida dos amores livres na Colônia. Surge então a pergunta central do livro, à qual a narrativa se baseia “seria constrangedor não conhecer a paternidade de um filho que você viesse a ter?”
Para Miguel Sanches Neto, Um amor anarquista foi um exercício de alteridade. Uma tentativa. Mas uma tentativa frustrada, porque a Colônia Cecília era uma colônia agrícola. Então eu a descrevi como se ela fosse Peabiru. Não é. Mas como é que se planta milho? Eu sabia, porque tinha plantado milho. Como é que se vive num lugar daquele, como é o pôr-do-sol de lá? Aquela experiência agrícola é toda autobiográfica, embora o livro seja histórico. O enredo é muito fiel à história. Nele, só existem duas personagens criadas por mim. Uma é a prostituta Maria Malacarne. Há boatos de que Giovanni Rossi, o idealizador da colônia, contratava prostitutas na cidade para servir aos anarquistas. Isso eu ouvia das famílias de descendentes da Colônia Cecília. No começo, era muito homem e pouca mulher, trabalho duro, comida pouca. Então, criei essa personagem que não existe, embora existam essas informações. E a segunda personagem criada por mim é outra prostituta, Narcisa. Rossi fala dela nos documentos sobre a colônia, mas não cita seu nome
Então, inventei um nome para ela. São essas as duas personagens que não têm nome de registro. Se vocês forem ao cemitério da Colônia Santa Bárbara, em Palmeira, vão encontrar os nomes dos outros personagens nos túmulos de lá. São absolutamente reais. Nesse livro, tentei me livrar um pouco da autobiografia, mas não consegui. No livro que acabei de terminar, e que está na editora, um romance demipolicial, também tentei fugir do universo da minha infância. Mas, desgraçadamente, seu narrador é um professor de literatura.
Pode-se dizer que o livro é  uma síntese do imigrante italiano: lágrimas, declarações, fome e sonhos.

9.1.12

Obras vestibular UNICENTRO: O Rei da Vela-Oswald de Andrade

O Rei da Vela, peça de Oswald de Andrade, é uma obra representativa da década de 30. A peça é considerada o primeiro texto modernista para teatro. O texto de Oswald de Andrade trata com enfoque marxista a sociedade decadente, com a linguagem e o humor típicos do modernismo.
Escrito a partir de 1933, depois da crise mundial de 1929, da Revolução de 30 e da Revolução Constitucionalista de 32, o texto manifesta a imensa amargura de Oswald, forçado a percorrer infindáveis escritórios de agiotagem para equilibrar-se financeiramente. Esse seu contato forçado com agiotas foi, provavelmente, a causa da caracterização de um agiota como Rei da Vela. O  texto supera a experiência pessoal de Oswald: fornece, sem falsas sutilezas, os mecanismos da engrenagem em que se baseia o esquema socioeconômico do país.
Pelo seu caráter pouco convencional, só foi levada a cena trinta anos depois, integrando o movimento tropicalista. Constitui-se num marco para a cultura brasileira, desencadeador do movimento Tropicalista.
A peça conta a história de um agiota inescrupuloso, Abelardo I, o Rei da Vela. Aproveitando-se da crise econômica que flagela o país, Abelardo empresta dinheiro e cobra juros escorchantes. E ai daquele que se atrever a chamá-lo de usurário. Reforma os títulos, até o dia em que cobra tudo e deixa liso o devedor.
Prepotente, Abelardo pisa em quem pode, mas sabe que é apenas "um feitor do capital estrangeiro". Ingleses e norte-americanos comandam o jogo, no qual brasileiro só faz figuração. Heloísa, por exemplo, deve servir ao Americano, personagem que entra em cena no segundo ato da peça.
A história se inicia em um escritório.  Burguês enriquecido à custa da privação alheia, Abelardo I é um representante da burguesia ascendente da época. Seu oportunismo, aliado a crise da Bolsa de Valores de Nova York, de 1929, permite-lhe todo tipo de especulação: com o café, com a indústria etc. Sua caracterização como o “Rei da Vela” é extremamente irônica e significativa: ele fabrica e vende velas, pois “as empresas elétricas fecham com a crise. Ninguém mais pode pagar o preço da luz”.
No primeiro ato, Oswald demonstra varas facetas do personagem: surge Abelardo II, empregado de Abelardo I, que pretende superá-lo. Entra um devedor que Abelardo I explora há anos e decide executar. Vários devedores são mostrados gritando através de uma jaula.
Heloísa representa a ruína da classe fazendeira. Seu pai, coronel latifundiário, vai a falência, num retrato em que predomina a perversão e o vício, símbolo de uma classe em decadência. A aliança de Abelardo e Heloísa pode, assim, representar a fusão de duas classes sociais corruptas pelo sistema capitalista.
Até mesmo a escolha dos nomes é irônica: Abelardo e Heloísa são dois famosos amantes da Idade Média: ele, um teólogo francês de século XII, ela, sobrinha de um sacerdote. Pouco tem a ver, portanto, com as personagens oswaldianas. Entre os noivos de Oswald, não há idealismo: Heloísa casa-se por interesse, fato sabido por Abelardo I, que também vê vantagens na aliança. Na verdade, Heloísa é membro de uma família da aristocracia rural falida e Abelardo I, da burguesia em ascensão. O casamento entre ambos é uma metáfora: com ele, Oswald simboliza a união entre essas duas classes sociais.
Surge um intelectual, Pinote, e o autor aproveita para mostrar a relação dos intelectuais e artistas com o poder. Em seguida, Abelardo I prepara-se para a chegada do representante do capital estrangeiro, Mr. Jones. A presença de Mr. Jones presença revela um país endividado: “os ingleses e americanos temem por nós. Estamos ligados ao destino deles. Devemos tudo o que temos e o que não temos. Hipotecamos palmeiras... quedas de águas. Cardeais!”
Com esta última personagem, Oswald completa o triunvirato que rege o país: a aristocracia rural (Heloísa) que se une à burguesia nacional (Abelardo I), para melhor servir ao capital estrangeiro (Mr. Jones).
Oswald utiliza a técnica da concentração de personagens com desvios (em geral sexuais) em uma só família para explicar a decadência da aristocracia rural. Assim, Heloísa de Lesbos possui, como o próprio nome indica, tendências homossexuais. D. Cesarina, sua mãe, mostra-se  acessível às investidas amorosas de Abelardo I. Totó Fruta-do-Conde, o irmão homossexual, acaba de roubar o amante da irmã, Joana, sarcasticamente apelidado João dos Divãs.
O coronel Belarmino, pai de Heloísa e chefe da família, suspira por um mundo em decadência, o mundo da aristocracia rural. E Perdigoto, outro irmão da moça, bêbado e jogador, é um fascista que planeja organizar uma "milícia patriótica" para conter os colonos descontentes - idéia que interessa a Abelardo I, desde que ela possa ser utilizada para a manutenção da ordem social de que depende sua riqueza.
O último ato, tortuoso e alegórico, ocorre no escritório de usura. Abelardo I foi roubado por Abelardo II. Perdeu tudo o que tinha e vai suicidar-se. Abelardo I lembra a Heloísa que ela se casará com Abelardo II, o ladrão. Morre o homem, mas o sistema permanece. Antes de morrer, Abelardo I mostra-se uma personagem consciente ao discutir com Abelardo II, garantindo que a burguesia está condenada e que os proletários se unirão para tomar o poder.
Mas que até esse dia os dois, a aristocracia rural e a burguesia nacional, continuarão submetidos ao americano, o capital estrangeiro. Apesar de sua consciência, pede uma vela antes de morrer. Recebe uma vela das mais baratas e, falido, o Rei da Vela será enterrado em uma vala comum. A peça termina aos acordes nupciais do casamento de Abelardo II com Heloísa.


Obras Vestibular UNICENTRO: O Cortiço- Aluísio Azevedo

Nincia Cecilia Ribas Borges Teixeira

O Cortiço foi publicado em 1890, em meio à atividade febril de produção literária a que Aluísio Azevedo se viu obrigado, em seu projeto de profissionalizar-se como escritor.
Narrado em 3ª pessoa, a obra tem um narrador onisciente que se situa fora do mundo narrado e/ou descrito. Há um total distanciamento entre o narrador e o mundo ficcional. Há o predomínio na narrativa do discurso indireto livre, o que permite ao autor revelar o pensamento das personagens. A visão do narrador é fatalista pois as camadas populares são vistas como animais condenados ao meio social que habitam, homens fadados a viverem como animais selvagens.


O cenário é descrito com ambiente e os caracteres em toda a sua sujeira, podridão e promiscuidade, com uma intenção crítica - mostrar a miséria do proletariado urbano - sem esconder a náusea que o narrador sente diante da realidade que revela, mas posicionando-se de maneira solidária junto ao povo do cortiço: "Sentia-se naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras ...o prazer animal de existir,... E naquela terra, ...naquela umidade quente e lodosa, começou a minhoca a esfervilhar, a crescer,... uma coisa viva, uma geração que parecia espontânea,... multiplicar-se como larvas no esterco."


Romance de cunho social, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é o marco da literatura realista-naturalista brasileira. Uma história envolvente e sombria de uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do Segundo Império que tem como tema a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado, João Romão, que aspira à riqueza, e Miranda, já rico, que aspira à nobreza. Do outro lado, a "gentalha", caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome. Todas as existências se entrelaçam e repercutem umas nas outras. O cortiço é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão.

O romance é de nítido recorte sociológico, representando as relações entre o elemento português, que explora o Brasil em sua ânsia de enriquecimento, e o elemento brasileiro, apresentado como inferior e vilmente explorado pelo português. A obra revela a aceitação de idéias filosóficas e científicas do tempo: a redução das criaturas ao nível animal (zoomorfismo) é característica do Naturalismo e revela a influência das teorias da Biologia do século XIX (darwinismo, lamarquismo) e o Determinismo (raça, meio, momento).

O sexo é, em O Cortiço, força mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do sexo, típica de determinismo biológico e do naturalismo, conduz Aluísio a focalizar diversas formas de "patologia" sexual: "acanalhamento" das relações matrimoniais, adultério, prostituição, lesbianismo etc.


Duas grandes qualidades devem ser observadas no estilo de O Cortiço: uma é a grande capacidade de representação visual do autor, certamente relacionada com sua habilidade para o desenho (Aluísio exerceu, em certa época, a atividade de caricaturista) e que faz que tenhamos freqüentemente, ao ler o romance, a impressão de estarmos assistindo a um filme; a outra é a sua formidável habilidade para dar vida à multidão, ao grande grupo humano dos moradores do cortiço. De fato, vemos, no romance, essa coletividade pulsar, reagir, legando-se, deprimindo-se ou irando-se — e ocupando o lugar de personagem central da obra. Desse grupo variado e animado destacam­se alguns tipos, a que o romancista soube atribuir urna individualidade marcante. Entre estes últimos, é inesquecível a figura de Rita Baiana, a bela, sensual, generosa e graciosa mulata, que se tornou uma das personagens mais notáveis da literatura brasileira. Deve se notar que no romance, as mulheres são reduzidas a três condições: de objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoleza e Piedade; de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; e de sujeito, são as que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.

O Cortiço conta principalmente duas histórias: a de João Romão e Miranda, dois comerciantes, o primeiro, o avarento dono do cortiço, que vive com uma escrava a qual ele mente liberdade. Com o tempo sua inveja de Miranda, menos rico mas mais fino, com um casamento de fachada, leva-o a querer se casar com sua filha (e tornar-se Barão no futuro, tal qual Miranda se torna no meio da história). Isto faz com que ele se refine e mais tarde tente devolver Bertoleza, a escrava, a seu antigo dono (ela se mata antes de perder a liberdade). A outra história é a de Jerônimo e Rita Baiana, o primeiro, um trabalhador português que é seduzido pela Baiana e vai se abrasileirando. Acaba por abandonar a mulher, pára de pagar a escola da filha e matar o ex-amante de Rita Baiana. No pano de fundo existem várias histórias secundárias, notavelmente as de Pombinha, Leocádia e Machona, assim como a do próprio cortiço, que parece adquirir vida própria como personagem.


A área suburbana do Rio de Janeiro do século XIX é o cenário da história de um esperto e pão-duro comerciante português chamado João Romão. Comprando um pequeno estabelecimento comercial, este consegue se aliar a uma negra escrava fugida de nome Bertoleza, proprietária de uma pequena quitanda. Para agradá-la, falsifica uma carta de alforria que asseguraria à negra a tão desejada liberdade. O pequeno estabelecimento, mantido pela esperteza de João Romão e o trabalho árduo de Bertoleza, começa a crescer. Aos poucos o português começa a construir e alugar pequenas casas, o que leva a edificação de um grande cortiço: a "Estalagem São Romão." Logo se ergueriam novas pendências, como a pedreira (que servia emprego aos moradores) e o armazém (onde os mesmos compravam seus artigos de necessidade). O crescimento só não agrada ao Senhor Miranda, dono de um sobrado vizinho.


Nas casas do cortiço, figuras das mais variadas caracterizações podem ser vistas e apreciadas: entre eles o negro Alexandre, a lavadeira Machona, a moça Pombinha, Jerônimo e Piedade (casal de portugueses), e a sensual Rita Baiana, que desfilava toda a sua sensualidade dançando nas festas. Num desses encontros feitos de música e gritos, Jerônimo se encanta com a dança de Rita Baiana, o que provoca ciúmes em Firmo, amante da moça. Há uma violenta briga, e Firmo fere o jovem português com uma navalha, fugindo logo depois. Jerônimo vai parar num hospital.

Forma-se um novo cortiço perto dali, recebendo o apelido de "Cabeça-de-gato" pelos moradores do cortiço de João Romão. Estes, por sua vez, os apelidam de "Carapicus", o que já indica a competição e a rincha entre eles. Enquanto isso, Jerônimo volta do hospital e, numa emboscada, mata Firmo, agora morador do cortiço rival. Enquanto o jovem português larga a mulher para viver com Rita Baiana, o pessoal do "Cabeça-de-gato" entra em guerra com os moradores do cortiço de João Romão para vingar a morte de Firmo. Um incêndio misterioso acaba com o conflito e destrói grande parte do cortiço do velho comerciante português.


João Romão reconstrói sua estalagem, que fica ainda mais próspera, e se alia a Miranda, com a intenção de freqüentar rodas mais finas e elegantes e se casar com um moça de boa educação. O verdadeiro intento do esperto comerciante é a mão de Zulmira, filha do novo amigo. Concretizando seu sonho, só resta agora se livrar do incômodo de sua companheira Bertoleza. Isso se dá através de uma carta enviada aos proprietários da negra fugida, revelando seu esconderijo. Estes não demoram a aparecer no cortiço com o intuito de levá-la de volta. Bertoleza, percebendo a traição, suicida-se com a mesma faca de limpar peixes que usou a vida inteira para preparar as refeições de João Romão e os clientes do seu armazém.


Personagens

As personagens em O Cortiço não podem ser tratadas como entidades independentes, podendo ser vistas preferencialmente como partes de uma rede intrincada de influências e interações. Alguns podem ser separados em grupos de forma mais clara em grupos de relacionamento, esquema no qual serão apresentados a seguir.

O cortiço e o sobrado: personagem principal; sofre processo de zoomorfização; é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão. Apesar de seu crescimento, desenvolvimento e transformação acompanharem os mesmos estágios na pessoas de João Romão, é, na verdade, o estabelecimento que muda o dono, não o contrário. Vê-se na evolução do cortiço um processo que não se pode evitar ou reverter, determinado desde o início da história, tendo João Romão apenas feito o que estava em seu instinto de homem desprovido de livre-arbítrio fazer. O sobrado representa para o cortiço o mesmo que Miranda representa para Romão, criando-se entre eles a mesma tensão que existe entre os dois homens.

João Romão, Miranda, Bertoleza e secundariamente, Zulmira, Botelho e D.Estela: de acordo com o crítico literário Rui Mourão, os elementos conflitantes na obra "não se isolam em planos equidistantes. Ao contrário, o que existe [...] é um estado de permanente tensão e mútua agressão". Afirma, em outra ocasião, que dessas lutas ninguém sairá vencedor ou vencido. Miranda e João Romão, apesar de aparentarem ser diferentes frente à sociedade, são essencialmente influenciados pelos mesmos elementos, tendo que ter, portanto, o mesmo destino. Seus rumos se tornam entrelaçados similarmente aos laços existentes entre sobrado e cortiço: vizinhos, porém distantes; diferentes, porém iguais sob olhar mais minucioso. Romão e Miranda são complementares. Bertoleza e D.Estela são, sob todas as óticas, o oposto uma da outra: a negra escrava, pobre e fiel, e a mulher branca, nobre e adúltera. Não há relação de complementação nesse caso, apenas uma forma de acentuação do abismo de inveja que une João e Miranda. Enquanto um deseja a independência, a prosperidade e a fidelidade conjugal do outro, o outro almeja os contatos, a nobreza e a capacidade de esbanjamento do um. Zulmira e Botelho têm aqui papéis de meros instrumentos do autor para dar andamento à história.

Jerônimo, Rita, Firmo e Piedade: nas relações entre essas personagens é demonstrado mais claramente o princípio naturalista que rege a obra de Azevedo. Suas interações são baseadas puramente no instinto, no desejo sexual, no ciúme, na ira. Jerônimo e Firmo, são, como Romão e Miranda, complementos um do outro. Um era "a força tranqüila,o pulso de chumbo, em constante tensão com a força nervosa (...) o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro instante". Mas, nas palavras de Azevedo, ambos corajosos. O autor deixa claro que nenhum deles pode fugir ao que lhes está destinado. Jerônimo, desde o dia em que viu Rita dançar pela primeira vez, estava fadado à perdição, arrastando Firmo e Piedade para o caminho do ciúme e da destruição a morte, no caso de Firmo, e a miséria e a quase-loucura, no caso de Piedade. A metamorfose de Jerônimo se dá como tentativa de se tornar Firmo antes de tirar o que lhe pertence não só Rita, mas tudo o que ela implicava: a beleza, os encantos da terra, a vida feliz do malandro sem preocupações. Cada um reage mais ou
menos de acordo como suas características pessoais, notoriamente a raça (a submissão da portuguesa e a belicosidade do mulato capoeira), mas se faz presente em todos a conformação, a inércia. Com a morte de Firmo, Jerônimo assimila o papel de seu rival, mantendo um fantasma do que era no passado, que a bebida e a Rita contribuem para esmaecer. Os elementos naturais e as circunstâncias estão sempre a sufocar qualquer manifestação psicológica independente, carregando os personagens numa correnteza inevitável e irreversível.

Pombinha, Leónie e Senhorinha: desde o momento em que é apresentada, a prostituta Leónie, madrinha de uma das filhas de Augusta, representa a independência financeira que aqueles que têm vida honesta não conseguem alcançar. Vende seu corpo, mas o que faz não é crime aos olhos dos moradores do cortiço, que não tem as cínicas restrições sexuais da burguesia brasileira. Pombinha, filha de D.Isabel, era uma garota de 18 anos que ainda não havia se tornado mulher. Após anos esperando o momento de se casar, irá se separar do marido após pouco tempo para seguir num relacionamento homossexual com Leónie, que havia lhe iniciado no prazer sexual. Ao atiçar a sexualidade de Pombinha, fazendo com que ela atinja a puberdade, Leónie põe em funcionamento uma dinâmica de acontecimentos que passam a independer da vontade dos personagens. Pombinha possuía um desenvolvimento intelectual maior que a maioria dos personagens do cortiço, talvez por não se ter visto envolvida tão cedo nas tramas de sexo e ciúme que os consumiam. Ao ter que começar uma vida como mulher casada, não
conseguiu se adaptar à falta de liberdade e foi viver com Leónie, aprendendo seu ofício. Ironicamente, a comercialização do sexo protagonizada por Leónie e Pombinha se contrapõe à vulgarização do sexo pelos moradores do Cortiço enquanto esses são escravos de seus impulsos, Leónie e Pombinha se tornam mais senhoras de si através do desejo alheio. Nesse quadro, Senhorinha, a filha de Jerônimo se insere para provar que ninguém foge ao meio: tendo sido criada num cortiço, substituindo Pombinha para seus moradores, com os pais separados e vendo homens tirar proveito da mãe de forma constante, termina tendo o mesmo destino de Pombinha, apesar da educação que teve.


Obras Vestibular UNICENTRO: O Cortiço- Aluísio Azevedo



Nincia Cecilia Ribas Borges Teixeira
O Cortiço foi publicado em 1890, em meio à atividade febril de produção literária a que Aluísio Azevedo se viu obrigado, em seu projeto de profissionalizar-se como escritor.
Narrado em 3ª pessoa, a obra tem um narrador onisciente que se situa fora do mundo narrado e/ou descrito. Há um total distanciamento entre o narrador e o mundo ficcional. Há o predomínio na narrativa do discurso indireto livre, o que permite ao autor revelar o pensamento das personagens. A visão do narrador é fatalista pois as camadas populares são vistas como animais condenados ao meio social que habitam, homens fadados a viverem como animais selvagens.


O cenário é descrito com ambiente e os caracteres em toda a sua sujeira, podridão e promiscuidade, com uma intenção crítica - mostrar a miséria do proletariado urbano - sem esconder a náusea que o narrador sente diante da realidade que revela, mas posicionando-se de maneira solidária junto ao povo do cortiço: "Sentia-se naquela fermentação sangüínea, naquela gula viçosa de plantas rasteiras ...o prazer animal de existir,... E naquela terra, ...naquela umidade quente e lodosa, começou a minhoca a esfervilhar, a crescer,... uma coisa viva, uma geração que parecia espontânea,... multiplicar-se como larvas no esterco."


Romance de cunho social, O Cortiço, de Aluísio Azevedo, é o marco da literatura realista-naturalista brasileira. Uma história envolvente e sombria de uma habitação coletiva no Rio de Janeiro do Segundo Império que tem como tema a ambição e a exploração do homem pelo próprio homem. De um lado, João Romão, que aspira à riqueza, e Miranda, já rico, que aspira à nobreza. Do outro lado, a "gentalha", caracterizada como um conjunto de animais, movidos pelo instinto e pela fome. Todas as existências se entrelaçam e repercutem umas nas outras. O cortiço é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão.

O romance é de nítido recorte sociológico, representando as relações entre o elemento português, que explora o Brasil em sua ânsia de enriquecimento, e o elemento brasileiro, apresentado como inferior e vilmente explorado pelo português. A obra revela a aceitação de idéias filosóficas e científicas do tempo: a redução das criaturas ao nível animal (zoomorfismo) é característica do Naturalismo e revela a influência das teorias da Biologia do século XIX (darwinismo, lamarquismo) e o Determinismo (raça, meio, momento).

O sexo é, em O Cortiço, força mais degradante que a ambição e a cobiça. A supervalorização do sexo, típica de determinismo biológico e do naturalismo, conduz Aluísio a focalizar diversas formas de "patologia" sexual: "acanalhamento" das relações matrimoniais, adultério, prostituição, lesbianismo etc.


Duas grandes qualidades devem ser observadas no estilo de O Cortiço: uma é a grande capacidade de representação visual do autor, certamente relacionada com sua habilidade para o desenho (Aluísio exerceu, em certa época, a atividade de caricaturista) e que faz que tenhamos freqüentemente, ao ler o romance, a impressão de estarmos assistindo a um filme; a outra é a sua formidável habilidade para dar vida à multidão, ao grande grupo humano dos moradores do cortiço. De fato, vemos, no romance, essa coletividade pulsar, reagir, legando-se, deprimindo-se ou irando-se — e ocupando o lugar de personagem central da obra. Desse grupo variado e animado destacam­se alguns tipos, a que o romancista soube atribuir urna individualidade marcante. Entre estes últimos, é inesquecível a figura de Rita Baiana, a bela, sensual, generosa e graciosa mulata, que se tornou uma das personagens mais notáveis da literatura brasileira. Deve se notar que no romance, as mulheres são reduzidas a três condições: de objeto, usadas e aviltadas pelo homem: Bertoleza e Piedade; de objeto e sujeito, simultaneamente: Rita Baiana; e de sujeito, são as que se independem do homem, prostituindo-se: Leonie e Pombinha.

O Cortiço conta principalmente duas histórias: a de João Romão e Miranda, dois comerciantes, o primeiro, o avarento dono do cortiço, que vive com uma escrava a qual ele mente liberdade. Com o tempo sua inveja de Miranda, menos rico mas mais fino, com um casamento de fachada, leva-o a querer se casar com sua filha (e tornar-se Barão no futuro, tal qual Miranda se torna no meio da história). Isto faz com que ele se refine e mais tarde tente devolver Bertoleza, a escrava, a seu antigo dono (ela se mata antes de perder a liberdade). A outra história é a de Jerônimo e Rita Baiana, o primeiro, um trabalhador português que é seduzido pela Baiana e vai se abrasileirando. Acaba por abandonar a mulher, pára de pagar a escola da filha e matar o ex-amante de Rita Baiana. No pano de fundo existem várias histórias secundárias, notavelmente as de Pombinha, Leocádia e Machona, assim como a do próprio cortiço, que parece adquirir vida própria como personagem.


A área suburbana do Rio de Janeiro do século XIX é o cenário da história de um esperto e pão-duro comerciante português chamado João Romão. Comprando um pequeno estabelecimento comercial, este consegue se aliar a uma negra escrava fugida de nome Bertoleza, proprietária de uma pequena quitanda. Para agradá-la, falsifica uma carta de alforria que asseguraria à negra a tão desejada liberdade. O pequeno estabelecimento, mantido pela esperteza de João Romão e o trabalho árduo de Bertoleza, começa a crescer. Aos poucos o português começa a construir e alugar pequenas casas, o que leva a edificação de um grande cortiço: a "Estalagem São Romão." Logo se ergueriam novas pendências, como a pedreira (que servia emprego aos moradores) e o armazém (onde os mesmos compravam seus artigos de necessidade). O crescimento só não agrada ao Senhor Miranda, dono de um sobrado vizinho.


Nas casas do cortiço, figuras das mais variadas caracterizações podem ser vistas e apreciadas: entre eles o negro Alexandre, a lavadeira Machona, a moça Pombinha, Jerônimo e Piedade (casal de portugueses), e a sensual Rita Baiana, que desfilava toda a sua sensualidade dançando nas festas. Num desses encontros feitos de música e gritos, Jerônimo se encanta com a dança de Rita Baiana, o que provoca ciúmes em Firmo, amante da moça. Há uma violenta briga, e Firmo fere o jovem português com uma navalha, fugindo logo depois. Jerônimo vai parar num hospital.

Forma-se um novo cortiço perto dali, recebendo o apelido de "Cabeça-de-gato" pelos moradores do cortiço de João Romão. Estes, por sua vez, os apelidam de "Carapicus", o que já indica a competição e a rincha entre eles. Enquanto isso, Jerônimo volta do hospital e, numa emboscada, mata Firmo, agora morador do cortiço rival. Enquanto o jovem português larga a mulher para viver com Rita Baiana, o pessoal do "Cabeça-de-gato" entra em guerra com os moradores do cortiço de João Romão para vingar a morte de Firmo. Um incêndio misterioso acaba com o conflito e destrói grande parte do cortiço do velho comerciante português.


João Romão reconstrói sua estalagem, que fica ainda mais próspera, e se alia a Miranda, com a intenção de freqüentar rodas mais finas e elegantes e se casar com um moça de boa educação. O verdadeiro intento do esperto comerciante é a mão de Zulmira, filha do novo amigo. Concretizando seu sonho, só resta agora se livrar do incômodo de sua companheira Bertoleza. Isso se dá através de uma carta enviada aos proprietários da negra fugida, revelando seu esconderijo. Estes não demoram a aparecer no cortiço com o intuito de levá-la de volta. Bertoleza, percebendo a traição, suicida-se com a mesma faca de limpar peixes que usou a vida inteira para preparar as refeições de João Romão e os clientes do seu armazém.


Personagens

As personagens em O Cortiço não podem ser tratadas como entidades independentes, podendo ser vistas preferencialmente como partes de uma rede intrincada de influências e interações. Alguns podem ser separados em grupos de forma mais clara em grupos de relacionamento, esquema no qual serão apresentados a seguir.

O cortiço e o sobrado: personagem principal; sofre processo de zoomorfização; é o núcleo gerador de tudo e foi feito à imagem de seu proprietário, cresce, se desenvolve e se transforma com João Romão. Apesar de seu crescimento, desenvolvimento e transformação acompanharem os mesmos estágios na pessoas de João Romão, é, na verdade, o estabelecimento que muda o dono, não o contrário. Vê-se na evolução do cortiço um processo que não se pode evitar ou reverter, determinado desde o início da história, tendo João Romão apenas feito o que estava em seu instinto de homem desprovido de livre-arbítrio fazer. O sobrado representa para o cortiço o mesmo que Miranda representa para Romão, criando-se entre eles a mesma tensão que existe entre os dois homens.

João Romão, Miranda, Bertoleza e secundariamente, Zulmira, Botelho e D.Estela: de acordo com o crítico literário Rui Mourão, os elementos conflitantes na obra "não se isolam em planos equidistantes. Ao contrário, o que existe [...] é um estado de permanente tensão e mútua agressão". Afirma, em outra ocasião, que dessas lutas ninguém sairá vencedor ou vencido. Miranda e João Romão, apesar de aparentarem ser diferentes frente à sociedade, são essencialmente influenciados pelos mesmos elementos, tendo que ter, portanto, o mesmo destino. Seus rumos se tornam entrelaçados similarmente aos laços existentes entre sobrado e cortiço: vizinhos, porém distantes; diferentes, porém iguais sob olhar mais minucioso. Romão e Miranda são complementares. Bertoleza e D.Estela são, sob todas as óticas, o oposto uma da outra: a negra escrava, pobre e fiel, e a mulher branca, nobre e adúltera. Não há relação de complementação nesse caso, apenas uma forma de acentuação do abismo de inveja que une João e Miranda. Enquanto um deseja a independência, a prosperidade e a fidelidade conjugal do outro, o outro almeja os contatos, a nobreza e a capacidade de esbanjamento do um. Zulmira e Botelho têm aqui papéis de meros instrumentos do autor para dar andamento à história.

Jerônimo, Rita, Firmo e Piedade: nas relações entre essas personagens é demonstrado mais claramente o princípio naturalista que rege a obra de Azevedo. Suas interações são baseadas puramente no instinto, no desejo sexual, no ciúme, na ira. Jerônimo e Firmo, são, como Romão e Miranda, complementos um do outro. Um era "a força tranqüila,o pulso de chumbo, em constante tensão com a força nervosa (...) o arrebatamento que tudo desbarata no sobressalto do primeiro instante". Mas, nas palavras de Azevedo, ambos corajosos. O autor deixa claro que nenhum deles pode fugir ao que lhes está destinado. Jerônimo, desde o dia em que viu Rita dançar pela primeira vez, estava fadado à perdição, arrastando Firmo e Piedade para o caminho do ciúme e da destruição a morte, no caso de Firmo, e a miséria e a quase-loucura, no caso de Piedade. A metamorfose de Jerônimo se dá como tentativa de se tornar Firmo antes de tirar o que lhe pertence não só Rita, mas tudo o que ela implicava: a beleza, os encantos da terra, a vida feliz do malandro sem preocupações. Cada um reage mais ou
menos de acordo como suas características pessoais, notoriamente a raça (a submissão da portuguesa e a belicosidade do mulato capoeira), mas se faz presente em todos a conformação, a inércia. Com a morte de Firmo, Jerônimo assimila o papel de seu rival, mantendo um fantasma do que era no passado, que a bebida e a Rita contribuem para esmaecer. Os elementos naturais e as circunstâncias estão sempre a sufocar qualquer manifestação psicológica independente, carregando os personagens numa correnteza inevitável e irreversível.

Pombinha, Leónie e Senhorinha: desde o momento em que é apresentada, a prostituta Leónie, madrinha de uma das filhas de Augusta, representa a independência financeira que aqueles que têm vida honesta não conseguem alcançar. Vende seu corpo, mas o que faz não é crime aos olhos dos moradores do cortiço, que não tem as cínicas restrições sexuais da burguesia brasileira. Pombinha, filha de D.Isabel, era uma garota de 18 anos que ainda não havia se tornado mulher. Após anos esperando o momento de se casar, irá se separar do marido após pouco tempo para seguir num relacionamento homossexual com Leónie, que havia lhe iniciado no prazer sexual. Ao atiçar a sexualidade de Pombinha, fazendo com que ela atinja a puberdade, Leónie põe em funcionamento uma dinâmica de acontecimentos que passam a independer da vontade dos personagens. Pombinha possuía um desenvolvimento intelectual maior que a maioria dos personagens do cortiço, talvez por não se ter visto envolvida tão cedo nas tramas de sexo e ciúme que os consumiam. Ao ter que começar uma vida como mulher casada, não
conseguiu se adaptar à falta de liberdade e foi viver com Leónie, aprendendo seu ofício. Ironicamente, a comercialização do sexo protagonizada por Leónie e Pombinha se contrapõe à vulgarização do sexo pelos moradores do Cortiço enquanto esses são escravos de seus impulsos, Leónie e Pombinha se tornam mais senhoras de si através do desejo alheio. Nesse quadro, Senhorinha, a filha de Jerônimo se insere para provar que ninguém foge ao meio: tendo sido criada num cortiço, substituindo Pombinha para seus moradores, com os pais separados e vendo homens tirar proveito da mãe de forma constante, termina tendo o mesmo destino de Pombinha, apesar da educação que teve.

Fonte: http://www.passeiweb.com.br/

4.1.12

Obras vestibular UNICENTRO: A Rosa do povo: Carlos Drummond de Andrade



Nincia Cecília Ribas Borges Teixeira
Cinquenta e cinco poemas compõem a obra "A Rosa do Povo", que foi escrita por Carlos Drummond de Andrade entre os anos de 1943 e 1945. É o mais longo de seus livros de poemas. O próprio título do poema já traz uma simbologia: uma rosa nasce para o povo, será a poesia para o coletivo? Para tentar saber, vale a pena ler o poema "A flor e a náusea”
Poesia da fase "eu menor que o mundo", toma como tema a política, a guerra e o sofrimento  do homem. Desabrocha o "sentimento do mundo", traduzido pela solidão e na impotência do homem, diante de um mundo frio e mecânico, que o reduz a um objeto.
obra é a mais extensa de todas as obras de Carlos Drummond de Andrade, composta por 55 poemas. Os versos, geralmente curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomínio do verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas). Embora em seu próprio título haja uma simbologia revolucionária, sem contar o número expressivo de poemas socialmente engajados, A rosa do povo apresenta grande variedade temática e técnica.
Nessa época, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial, e Drummond, que nunca fora alheio a questões ideológicas ou humanas, aos sofrimentos ou à dor na cidade ou no campo, escreveu nesse livro (ao lado de outros diversos temas) sua indignação e tristeza melancólica com o mundo, com a violência e com a necessidade de se ter uma ideologia.
Por isso, os estudiosos dizem que este talvez seja o livro mais "politizado" do poeta mineiro. Essa obra, na verdade, funde as ideias sociais que estão em outros dois livros ("José" e "Sentimento do Mundo"). Drummond acrescenta ao tema social seu desencanto, seu pessimismo.
Em muitos de seus poemas deste livro, Drummond confessa a impotência da poesia só para criar beleza. Havia um inconformismo dos artistas com a crueldade que se via no mundo em geral, e uma pergunta que o mineiro Drummond nunca deixou de se fazer: para que serve a poesia? No poema "Carta a Stalingrado", (cidade em que os soviéticos vencem ao alemães) diz Drummond que a poesia foi parar nos jornais:
Stalingrado...
Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
Outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora
E o hálito selvagem da liberdade dilata seus peitos(...)
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero
Drummond nos diz de forma tão simples quanto o mundo mudou. A temática engajada, política e socialmente, está sempre presente no livro. Mas há outra, muito forte: usemos a palavra poética; é claro que, apesar de tudo, devemos fazer poesia, pensa o poeta.
Predomina no conjunto dos poemas uma dualidade: de um lado devemos participar politicamente da vida; de outro, só é possível ter uma visão triste e desencantada da vida. Seria a esperança contra o pessimismo? O fato é que, diferentemente do humor de outros livros, nestes poemas CDA tem um tom solene, grave e triste.
CARACTERÍSTICAS

a)      Intertextualidade:
  Presença de textos de outros poetas"Nova canção do exílio", paródia e homenagem a Gonçalves Dias:
 
“Um sabiá
Na palmeira, longe.
Estas aves cantam
Outro canto.”(...)
b)      Existencialismo
Os temas sociais tratados em "A Rosa do Povo" abrandaram; o que nunca abrandou depois foram as perguntas que o poeta se faz sobre si mesmo neste mundo; a isso chamamos existencialismo, que também faz parte integrante deste livro. Neles, o sentimento de culpa é substituído pela noção de náusea: a náusea existencialista, à maneira de Sartre, que, mais do que uma sensação física de enjôo, é uma situação de absoluta liberdade de quem a vivencia.
Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
Garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
(...)
É feia. Mas é realmente uma flor.
A Flor e a Náusea

c)       Culpa e a responsabilidade moral
Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho. (...)

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei
.

d)      Registro puro e simples de uma ordem política injusta
Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto (O Medo)
e) a passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade (em termos concretos e em termos abstratos) -
f) Solidão, angústia e incomunicabilidade
É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.(Anoitecer)
g) A morte
  Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer

 
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