27.8.12

TEMPO DE MENINO- DOMINGOS PELEGRINI


Nas cinco histórias reunidas em TEMPO DE MENINO há um claro tom de nostalgia e o delicioso  sabor de descoberta do mundo. São importantes episódios que, mesclando graça, ternura, ingenuidade e amargura, falam daquele tempo fascinante em que a criança começa a perceber um mundo novo: o mundo dos adultos. TEMPO DE MENINO traz a marca de um autor que sabe contar histórias, de modo fácil e envolvente. Ao relatar experiências importantes na vida de qualquer garoto, Domingos Pellegrini vai revelando a complexidade das relações humanas envolvidas em situações aparentemente banais. Um livro que, por certo, vai permitir ao leitor viver e reviver todo o encantamento do seu tempo de menino. Em cinco contos, o autor reconstitui emoções vividas por alguém que - na infância ou juventude - descobre o mundo.
  Em Tempo de Menino, Pellegrini afirma em entrevista à editora que publicou a obra, como as lembranças da infância, dos desentendimentos dos pais, do lado pessoal de uma forma geral, tiveram forte influência na sua literatura (1997). Em Meninos e meninas o autor confessa, em outra entrevista, como os contos, de uma forma geral, são recriações literárias de passagens da vida dele.
                       
  Todas [as obras] têm um pouco de mim aqui ou ali, de um jeito ou de outro. Às    vezes, sou o menino, às vezes, o pai. Glória é uma menina bem parecida com o   menino que eu fui. A menina de “Quadrondo” sofre com a separação dos pais   como sofri a dos meus. Já o conto “Volta ao mar” é uma espécie de continuação    poética de “Estação de mar”, conto que está no livro Tempo de menino. (...) Este  livro é como um casarão, só que reúne “contos parentes”. (1998, p.101)
“Visita ao Zoológico”: O pai prometera levar o filho ao zoológico, mas adiava sempre, pois era preciso que ele merecesse. Estava aprontando constantemente. Era muito travesso. 
Certo dia, tirara as agulhas de crochê da Vó para fazer ponta de flecha. Diante de suas reclamações, ainda respondera: 
“ – Que que a senhora faz com a aposentadoria do Vô? A senhora nunca põe um tostão em casa!” Pobre Vó. Chateada, ficou três dias trancada em seu quarto. Com certeza, ele ainda teria que continuar esperando a oportunidade para ir visitar o zoológico. 

Passaram-se vários domingos e nada! Até que num dia qualquer o seu sonho se realizou. Seu pai havia sido despedido do emprego e mesmo assim resolveu cumprir com a promessa: levá-lo ao zoológico. Falou que tinha aprendido com seu Vô que quando as coisas não vão bem, é hora de fazer uma festa. E assim, o garoto pediu pipoca, sorvete, chiclete... 
Seu pai não gostava de zoológico, porque os bichos ficam enjaulados e isto para ele, não tinha graça, despertava tristeza. 
Correu, brincou, observou atenciosamente os animais: tigre, gorila, girafa, zebra, cobra, jacaré... Estava na hora de voltar. Viu a onça e lembrou da mãe, porque estava sempre a ralhar por qualquer motivo. E o seu pai lhe disse que ela era uma mistura de galinha choca com loba braba. E a Vó, uma mistura de raposa com cobra; porém, na verdade, ela era apenas uma gatona velha.

No conto “Homem ao mar” em Tempo de menino (1997), Pellegrini conta a estória de pai e  filho que passaram por apuros depois que o filho caiu no mar revolto durante uma pescaria. O  autor narra da seguinte forma a preocupação do pai diante do perigo iminente:
Agora, o pai sabe que não tem tempo de explicar nada, sabe o que deve fazer e  faz. (...) pulou de ponta, sai de perto filho, vê que outra onda já vem vindo lá atrás.  Nada para frente! – grita aprontando – Vamos furar a onda! Lê o pensamento no  olhar do filho: será que ele ficou louco! (PELLEGRINI 1997: 67),
O conto “A última janta” faz uma metáfora interessante mesclando elementos de índices e informantes. Para isso o texto narra a estória de um menino que  morava com a mãe em uma pensão onde peões vinham jantar. A descoberta do mundo e das  coisas se dá por meio da mistura da comida e do processo de transformação que esta faz no  corpo humano. Em um dado momento um agenciador de nome Zé come diante do menino  que, como qualquer outro da sua idade, faz muitas perguntas. Na medida que o agenciador  come e mistura o arroz, o feijão, a carne, o menino pergunta e descobre novos mundos:
– Por que a gente come, Zé?
O agenciador riu; os peões da mesa riram.
– Bom – começou – tudo o que a gente come vira alguma coisa dentro da gente.
O menino ia abrindo a boca devagar, o queixo pendendo.
– O bife vira músculo. Deixa eu ver.
Apalpou o braço de menino.
(...) – E o arroz vira o quê?
– Arroz não é branco? Vira osso, vira dente.
(...)  – E o feijão?
O feijão banhava o fundo do prato, lambuzava os pedaços de bife; num canto ia
aparecendo abobrinha picada.
Uma das características mais marcantes do trabalho literário de Pellegrini são as muitas
históricas que envolvem crianças, na verdade, meninos, adolescentes homens ou jovens no início da idade adulta. Um viés que começou logo no início da carreira do escritor com a obra Meninos, de 1977. É importante fazer um breve parêntese para salientar a onipresença do nome “menino” em grande parte dos livros e/ou dos contos que o autor escreveu desde a década de 70. Logo após Meninos (1977), temos Os meninos crescem (1988),

Obra Vestibular UNICENTRO: Muitas Vozes -Ferreira Gullar


Escrito em 1999,  Muitas Vozes é um conjunto de 54 poemas independentes com forte traço memorialístico, que foge a qualquer classificação literária. A obra resgata a polifonia do autor ao longo de sua trajetória como poeta, o que explica as muitas vozes do título.

 

Mais do que em outros livros, Gullar evoca imagens cotidianas ao mesmo tempo em que faz questionamentos existenciais e explicita sua visão de mundo. O autor pertence ao Modernismo da chamada Geração de 45, caracterizada pelo experimentalismo linguístico e formal, preocupação social e a valorização do raciocínio e do trabalho artesanal do poeta. Autenticidade, lirismo e referências autobiográficas são marcas fortes do autor neste livro. Os poemas  retratam a morte, vida, infância e sexo.


Temas
Desejo, erotismo (no poema Coito), expressão da morte da esposa (em Thereza), sexo (Definição da moça), a dualidade entre barulho e silêncio (Nasce o poeta e Evocação do silêncio), família (Filhos), figuras políticas (Queda de Allende), referências literárias, como Mallarmé e exílio político (Filho da ilha).
Muitas vozes pode ser lido como a obra de maturidade de um autor que desde muito cedo despontou como uma voz singular na poesia brasileira.

Na obra ouve-se o eco de toda essa experiência acumulada ao longo de quase sete décadas. Da eterna luta corporal com a palavra presente em "Sob a espada" até a política expressa em versos de "Queda de Allende", o novo livro apresenta um Gullar continuamente renovado.

Gullar volta a nos oferecer a melhor poesia do Brasil, num estilo transparente e despido de qualquer pedantismo universitário, fruto da cristalização de suas experiências e linguagens. Na obra, Gullar explora elementos do concretismo, de versos espalhados e sem pontuação. Os poemas giram muito em torno da morte. É que neste espaço de tempo Gullar perdeu a mulher, Thereza, e um dos filhos, Marcos. No livro Muitas Vozes, são feitas referências claras a essas perdas em dois poemas em especial.

No curto poema "Thereza", Gullar expressa a perda da mãe de seus filhos.A morte aparece sempre como reflexão. Ele traça um paralelo entre a vida e a morte.

Muitas vozes poucas vezes consegue manter o nível de radicalidade que é tudo o que se esperaria de mais um trabalho de Ferreira Gullar. Mas há momentos em que ainda vislumbramos o Gullar vertiginoso e veloz.


Na segunda parte do livro, “Ao rés da fala”, o poeta volta-se para temas do dia-a-dia, uma vez que sua poesia está sempre num impasse entre a narrativa e a prosa, perceptível já na seleção de poemas “As revelações espúrias” de A luta corporal. É, certamente, o momento mais fraco de Muitas vozes, uma vez que o poeta não soluciona a mistura entre a linguagem e a o cotidiano, preferindo se referir a parentes (pais, filhos), a figuras políticas (Allende) e literárias (Mallarmé). O melhor poema desta parte é “Lição de um gato siamês”, tendo como tema a morte, com bons versos:



Na última seção de Muitas vozes, “Poemas resgatados”, Gullar prefere se ater ao imaginário referencial de seus poemas de A luta corporal. “O poema na rua” lembra os poemas iniciais de Gullar:

coisa clara
fruta
ata
polpa

como palavra

ou lavoura

ou toalha
que esvoaça

o poema
na mente do poeta
a caminhar
na rua Duvivier.


Outro poema, "Nova concepção da morte", são dísticos formados por alexandrinos escandidos e rimados com talento singular, domínio perfeito da técnica, espontaneidade adquirida, naturalidade conquistada com a prática.

"Nasce o poeta" é outro bom momento, uma poética em que No princípio / era o verso / alheio, e em que o poema não diz / o que a coisa é // mas diz outra coisa / que a coisa quer ser.

"Cantiga para não morrer", um dos belos exemplos do lirismo depurado aliado à solidariedade e empatia para o social, que estão sempre presentes na obra de Gullar.

Em Muitas Vozes ouve-se o eco de toda a experiência acumulada pelo poeta ao longo de quase sete décadas. Da eterna luta corporal com a palavra presente em "Sob a espada" até a política expressa em versos de "Queda de Allende", o livro apresenta um Gullar continuamente renovado.


Obra Vestibular da UNICENTRO: Jangada de Pedra- José Saramago

          

Obra publicada em 1986, José Saramago  narra uma série de acontecimentos fantásticos que trata da separação da Península Ibérica que navega à deriva no Atlântico, indo inicialmente em direção aos Açores.

Dividida em 23 capítulos, a obra preserva o português lusitano  destacando-se expressões populares típicas de Portugal. O autor se utiliza de períodos e parágrafos muito. Há uma total  eliminação dos sinais de pontuação (usando predominantemente a vírgula e o ponto).

O romance se inicia com a narração de alguns casos insólitos: Joana Carda e a vara de negrilho, Joaquim Sassa e o arremesso de uma pedra ao mar, José Anaiço e os estorninhos, Pedro Orce e o tremor da terra e Maria Guavaira e o fio de lã, onde são interligados mais adiante na narrativa. O elemento desencadeador da história está centrado na ação desses cinco personagens que se encontram em locais diferentes, quatro em Portugal e um na Espanha: Em Portugal, com Joana Carda riscando o chão com uma vara de negrilho, Joaquim Sassa atirando uma pesada pedra ao mar, José Anaiço passando a ser acompanhado por um gigantesco bando de pássaros, Maria Guavaira começando a desfazer um pé de meia e, finalmente, na Espanha, Pedro Orce batendo os pés no chão. A junção desses acontecimentos, curiosa e inexplicavelmente, dá início ao rompimento geológico dos Pirineus, fazendo com que Portugal e Espanha se desliguem totalmente da Europa e passem, tal qual uma descomunal jangada de pedra, a navegar pelo oceano afora, rumo a um novo destino.

O cão Ardent é também uma das personagens que vai compor a caravana composta pelas cinco personagens, uma vez que também sentiu o estalar da pedra. Os cinco personagens principais vão se encontrando aos poucos, primeiro Joaquim Sassa com José Anaiço, em seguida os dois encontram-se com o espanhol Pedro Orce. Aos três, junta-se Joana Carda, a qual une-se amorosamente a José Anaiço. Depois desses encontros, é a vez do cão Ardent aparecer, com um fio de lã azul constantemente à boca, e os conduzir até Maria Guavaira, que enamora-se por Pedro Sassa. Dessa forma, os seis iniciam uma viagem pelo interior da Península Ibérica a qual os levará à descobertas de novos horizontes, tanto pessoal quanto coletivamente.
O tempo da narrativa é psicológico. Embora haja referências cronológicas, elas não predominam, além de serem em grande parte imprecisas.
José Saramago sempre foi um escritor consciente da realidade social do seu país e da sua gente, toda sua obra está marcada pela crítica à realidade nacional de um povo empobrecido e atrasado socialmente. Saramago parece acreditar, e isso pode ser comprovado em suas inúmeras entrevistas e debates no qual participou, que Portugal e Espanha fazem parte de uma outra face da Europa, menos valorizada. Daí a separação dos dois países.


A própria metáfora “Jangada de Pedra” remete a dois modelos de existência: um deles associado ao movimento, dinamismo, típico da jangada como meio de travessias marítima e o outro o da pedra como elemento estático, parado, que não vai para frente, por estar preso ao chão. A dinâmica do movimento está ligada à ruptura da península com a Europa, a partir de processos surpreendentemente inexplicáveis, como riscar o chão com uma vara, atirar uma pedra ao mar, pisar no chão etc.

 

O espaço é a Península Ibérica vagando pelo Oceano Atlântico.

 

PERSONAGENS PRINCIPAIS


Logo no início do romance, o narrador destaca estrategicamente as cinco personagens mais o cão que as guiará e os acontecimentos sobrenaturais relacionados a cada uma, e anuncia a ruptura da Península, a qual todos estão ligados. A narrativa é tomada por um clima de incertezas e pressentimentos apocalípticos.



Joana Carda - Portuguesa divorciada que mora na região de Ereira.

Joaquim Sassa - Português (Porto), trabalha em um escritório, estando de férias por uma praia ao norte de Portugal.



José Anaiço - Português (Ribatejo) com o ofício de professor que fica sendo acompanhado constantemente por uma nuvem de estorninho.



Pedro Orce - Próximo dos sessenta anos, espanhol da região de Orce, farmacêutico no vilarejo de Venta Micena.



Maria Guavaira - Habitante da região rural da Galiza, puxa um fio azul de lã de uma meia que se multiplica exageradamente em comprimento.

COMENTÁRIOS GERAIS


Em A jangada de pedra, o autor exclui literalmente a Península Ibérica da Europa valendo-se do discurso irônico e do realista mágico, mas não com o objetivo de dessacralizar a história oficial, como fez em Memorial do convento, mas para questionar sobre o porvir, dialogando com antecedentes históricos, expressos na intertextualidade, por exemplo, com Camões, e sugerindo uma solução para o futuro, que se realiza na configuração mítica de um novo mundo.



Traz uma crítica afiada e agressiva a todo este contexto, na obra o autor apela para uma faceta onde se identifica um traço que chega a partir para o lado surreal da literatura: a divisão da Península Ibérica do restante da Europa, onde Portugal e Espanha desprendem-se do continente e começam a “navegar” pelos oceanos de forma aparentemente errante.



A rigor vemos que não é só Portugal que adota esta postura de “separação”. A Espanha também passa por uma situação similar no continente Europeu, tendo sido considerado um país hoje periférico e sendo ontem também dona de um império colonizador e hoje sofrendo os mesmos dramas portugueses.



A separação se dá através de um ato banal, uma personagem ao traçar uma linha no chão com uma vara de madeira cria assim uma analogia com uma fronteira imaginária no mapa, considerado mutante da Europa e a partir desta fenda ocorre a separação da península. O primeiro passo deste estudo é identificar porque a Espanha é incluída na separação.

Não basta justificar a inclusão apenas pela similaridade das situações históricas e políticas, mas há uma forte identificação entre as culturas de ambos, sendo assim explícita quando o ponto de interseção entre os dois países são as línguas, ambas provenientes do Latim e com traços fonéticos de alta similaridade, sendo a língua espanhola e a língua portuguesa compreensíveis até determinado ponto entre os dois povos, trazendo uma espécie de “irmandade”. Outro ponto interessante é que após a separação a idéia de país torna-se menor em relação à idéia de península, pondo os espanhóis e os portugueses como habitantes de um lugar comum, verdadeiros conterrâneos passando pelas mesmas dificuldades e conflitos.

O desprender da Península do continente europeu mostra uma espécie de recomeço na vida dos iberianos (nomenclatura adotada neste estudo para se identificar os espanhóis e portugueses) que, repetindo a história voltam a se lançarem ao mar, mesmo que de uma forma inusitada a península assume o papel das naus que no passado trouxeram o esplendor do império aos países em questão, mostrando uma esperança em relação ao retorno dos tempos de glória da idade moderna. No seguinte trecho podemos observar a identificação cultural e histórica entre os dois países:

“É que, concluamos o que suspenso ficou, por um grande esforço de transformar pela palavra o que talvez só possa pela palavra possa a vir ser transformado, chegou o momento de dizer, agora chegou, que a Península Ibérica se afastou de repente, toda por inteiro e por igual, dez súbitos metros, quem me acreditará, abriram-se os Pireneus de cima a baixo como se um machado invisível tivesse descido das alturas, introduzindo-se nas fendas profundas, rachando pedra e terra até o mar, agora sim, poderemos ver o Irati caindo, mil metros, com o infinito, em queda livre, abre-se ao vento e ao sol, leque de cristal ou cauda de ave-do-paraíso, é o primeiro arco-íris suspenso pelo abismo, a primeira vertigem do gavião que com as asas molhadas paira, tingidas de sete cores.



Nesta passagem, construída com muitos elementos simbólicos, fica claro o início da jornada da “Jangada” constituída pelos dois povos pelo mar. Jornada esta com um início mítico, passando pelo portal de arco-íris em direção ao sol (símbolo máximo da esperança) relembrando a tradição mítica da fundação de Portugal. Também nesta passagem abrir-se ao vento e ao sol tem um significado implícito de retornar as origens da formação da cultura lusa e de buscar novas terras como a tradição colonizatória do país, possuindo uma face heróica trazida da tradição camoniana épica e também uma forma de “deixar para trás” um continente viciado e recomeçar a pátria como um dia fez Vasco da Gama. Um questionamento tipicamente modernista como uma forma de se chegar às raízes das conquistas dos impérios e fortificação das monarquias nacionais com o fim de reaver a posição portuguesa no patamar mundial.

Toda obra remete-se às várias fases da literatura portuguesa, fases estas que se percebe o heroísmo e estoicismo do homem português exaltados. A tradição camoniana é uma das maiores inspiradoras do texto, trazendo assim um texto com forte apelo dramático e épico, com um aflorado teor epopéico escrito em prosa onde os personagens neste caso assumem um papel secundário sendo assim o “pano de fundo” do texto (a Península) o verdadeiro personagem principal.



A renovação dos países de línguas originárias do Latim remete-nos ao também passado de glórias do Império Romano. A história portuguesa e espanhola traz desde suas formações políticas esta relação com o imperialismo e a dominação. A Península assume o papel de um novo país/ império em busca de seu lugar. O vagar da península pelo oceano também traz dentro de si uma analogia com o expansionismo do latim e, no caso mais em primeiro plano de Portugal o retorno da navegação no sentido da descoberta do novo mundo.


Com o desenvolver do texto a idéia de país chega a se tornar completamente abafada em relação à idéia de Península (comunidade), posta como um novo lar deste novo povo que surge com a separação desta da Europa, o maior problema filosófico do pensamento literário moderno está explícito na seguinte passagem:


“O tempo é de férias, pode ir e voltar sem ter de pedir licença, agora nem o passaporte exigem na fronteira, mostra-se simplesmente o bilhete de identidade e é nossa a península.”

Na simples passagem acima nota-se que volta a haver uma relação afetiva entre o homem e sua terra natal. Agora causando furor mundial o fato da separação da Europa (e de uma certa forma também do resto do mundo) o homem ibérico volta a mostrar um certo orgulho de mostrar em sua documentação a sua nacionalidade, agora voltando a ser motivo de patriotismo e nacionalismo como antes fora, o projeto da revitalização da história e de retornar ao cume do mundo começa a se esboçar lentamente através deste pequeno ato de soberania: um cidadão respeitado pela sua nacionalidade, algo que o português sente falta e é preenchido no texto.

A nova nação ibérica é uma visão revolucionária dentro do contexto “velho mundo”. Uma forma de trazer para si esta superioridade é justamente na colonização cultural, onde uma forma de fazer com que este se realize é trazendo adeptos para esta nova nação. A exemplo do atual cenário mundial onde o visto permanente nos Estados Unidos é cobiçado (o Greencard) trazendo para o imigrante a possibilidade de uma dupla nacionalidade. A Península também traz para si seus imigrantes, não de uma forma propriamente dita, mas sim um novo pensamento de aproximação com este novo país.

“Os países da Europa, onde felizmente se tem verificado um certo abaixamento de tom na linguagem quando se referem a Portugal e Espanha, depois de séria crise de identidade com qual se debateram quando milhões de europeus resolveram declarar-se ibéricos (...) Quanto aos Estados Unidos da América do Norte, que assim por extensão inteira deverão ser sempre nomeados, apesar de terem mandado dizer que a fórmula de governo de salvação nacional não é do seu agrado, mas que enfim vá lá, atendo a circunstância, declaram-se dispostos a evacuar toda a população de Açores (...) ficando todavia para resolver mais tarde onde poderão ser instaladas estas pessoas, nos próprios Estados salvadores (...) e esse é o sonho secreto do Departamento de Estado do Pentágono, seria que as ilhas detivessem, mesmo que com alguns estragos, a península que assim ficaria fixada no meio do Atlântico para benefício da paz do mundo, da civilização ocidental e de óbvias conveniências estratégicas”.

O rico trecho acima mostra a aproximação dos Estados Unidos a Península. Visivelmente disposto a selar um acordo com o país que se aproxima denota-se um aumento na importância dos países em relação ao globo. Tanto mostrados na passagem dos possíveis acordo entre estados (já existe um reconhecimento desta natureza– estado independente- para a Península) até com o simples abaixamento no tom de voz dos outros povos, sinal de respeito e aceitação.



A relação com os Estados Unidos, a grande nação imperialista do mundo atual, funciona como uma espécie de acordo entre impérios, onde os EUA aceitam a anexação da península em seu território trazendo na justificativa uma pesada carga de ironia satirizando o estereótipo em relação ao pensamento do homem estadunidense, uma forma de manter a paz no mundo e em toda civilização ocidental (pretexto dos últimos acontecimentos no Iraque) e, usando o arquipélago de Cuba pra frear o avanço da península, usando um eufemismo “mesmo que com alguns estragos” para se referir a destruição do país, que, nesta visão satírica de imperialismo não passará de alguns estragos, tudo facilmente reparável e sem grande importância. Clara crítica ao pensamento considerado hermenêutico.



Nisto a longa viagem da península tem seu fim quando ao descer em direção das Américas a Península “ancora”, dando ao entendimento do leitor ter se estabilizado na costa do Novo Mundo, podendo até se especular (devido a sua vasta extensão costeira) que a Península teria se fixado na costa brasileira. Fato este que traria a Península a uma nova terra em desenvolvimento, com uma cultura mais aberta em relação ao purismo dos países europeus e com povos nascidos da miscigenação da colonização (e, diga-se de passagem, falantes das línguas portuguesa e espanhola) como uma forma de trazer à luz do homem português a ciência de que a língua, como um produto vivo do dinamismo cultural muda e sofre passa por mutações, não podendo ser amarrada em regras e preconceitos dogmáticos que tanto geram conflitos às mentes presas ao imperialismo medieval.



Assim a narrativa descreve o caos estabelecido na Península a partir do desgarramento, desde os problemas políticos, falta de alimentos, apagões até as alterações ecológicas. Trata-se de um prenúncio apocalíptico, dimensionado pelo descaso dos países europeus e pelos movimentos marítimos da “jangada”. O realismo mágico instaura-se já no primeiro capítulo, quando o narrador, instância importante na realização da categoria, antecipa de forma magistral os acontecimentos mágicos que vão se intensificar no decorrer de um enredo nada linear.



 

25.8.12

Obras vestibular UNICENTRO: O Rei da Vela- Oswald de Andrade


O Rei da Vela, peça de Oswald de Andrade, é uma obra representativa da década de 30. A peça é considerada o primeiro texto modernista para teatro. O texto de Oswald de Andrade trata com enfoque marxista a sociedade decadente, com a linguagem e o humor típicos do modernismo.
Escrito a partir de 1933, depois da crise mundial de 1929, da Revolução de 30 e da Revolução Constitucionalista de 32, o texto manifesta a imensa amargura de Oswald, forçado a percorrer infindáveis escritórios de agiotagem para equilibrar-se financeiramente. Esse seu contato forçado com agiotas foi, provavelmente, a causa da caracterização de um agiota como Rei da Vela. O texto supera a experiência pessoal de Oswald: fornece, sem falsas sutilezas, os mecanismos da engrenagem em que se baseia o esquema socioeconômico do país.
Pelo seu caráter pouco convencional, só foi levada a cena trinta anos depois, integrando o movimento tropicalista. Constitui-se num marco para a cultura brasileira, desencadeador do movimento Tropicalista.
A peça conta a história de um agiota inescrupuloso, Abelardo I, o Rei da Vela. Aproveitando-se da crise econômica que flagela o país, Abelardo empresta dinheiro e cobra juros escorchantes. E ai daquele que se atrever a chamá-lo de usurário. Reforma os títulos, até o dia em que cobra tudo e deixa liso o devedor.
Prepotente, Abelardo pisa em quem pode, mas sabe que é apenas "um feitor do capital estrangeiro". Ingleses e norte-americanos comandam o jogo, no qual brasileiro só faz figuração. Heloísa, por exemplo, deve servir ao Americano, personagem que entra em cena no segundo ato da peça.
A história se inicia em um escritório. Burguês enriquecido à custa da privação alheia, Abelardo I é um representante da burguesia ascendente da época. Seu oportunismo, aliado a crise da Bolsa de Valores de Nova York, de 1929, permite-lhe todo tipo de especulação: com o café, com a indústria etc. Sua caracterização como o “Rei da Vela” é extremamente irônica e significativa: ele fabrica e vende velas, pois “as empresas elétricas fecham com a crise. Ninguém mais pode pagar o preço da luz”.
No primeiro ato, Oswald demonstra varas facetas do personagem: surge Abelardo II, empregado de Abelardo I, que pretende superá-lo. Entra um devedor que Abelardo I explora há anos e decide executar. Vários devedores são mostrados gritando através de uma jaula.
Heloísa representa a ruína da classe fazendeira. Seu pai, coronel latifundiário, vai a falência, num retrato em que predomina a perversão e o vício, símbolo de uma classe em decadência. A aliança de Abelardo e Heloísa pode, assim, representar a fusão de duas classes sociais corruptas pelo sistema capitalista.
Até mesmo a escolha dos nomes é irônica: Abelardo e Heloísa são dois famosos amantes da Idade Média: ele, um teólogo francês de século XII, ela, sobrinha de um sacerdote. Pouco tem a ver, portanto, com as personagens oswaldianas. Entre os noivos de Oswald, não há idealismo: Heloísa casa-se por interesse, fato sabido por Abelardo I, que também vê vantagens na aliança. Na verdade, Heloísa é membro de uma família da aristocracia rural falida e Abelardo I, da burguesia em ascensão. O casamento entre ambos é uma metáfora: com ele, Oswald simboliza a união entre essas duas classes sociais.
Surge um intelectual, Pinote, e o autor aproveita para mostrar a relação dos intelectuais e artistas com o poder. Em seguida, Abelardo I prepara-se para a chegada do representante do capital estrangeiro, Mr. Jones. A presença de Mr. Jones presença revela um país endividado: “os ingleses e americanos temem por nós. Estamos ligados ao destino deles. Devemos tudo o que temos e o que não temos. Hipotecamos palmeiras... quedas de águas. Cardeais!”
Com esta última personagem, Oswald completa o triunvirato que rege o país: a aristocracia rural (Heloísa) que se une à burguesia nacional (Abelardo I), para melhor servir ao capital estrangeiro (Mr. Jones).
Oswald utiliza a técnica da concentração de personagens com desvios (em geral sexuais) em uma só família para explicar a decadência da aristocracia rural. Assim, Heloísa de Lesbos possui, como o próprio nome indica, tendências homossexuais. D. Cesarina, sua mãe, mostra-se acessível às investidas amorosas de Abelardo I. Totó Fruta-do-Conde, o irmão homossexual, acaba de roubar o amante da irmã, Joana, sarcasticamente apelidado João dos Divãs.
O coronel Belarmino, pai de Heloísa e chefe da família, suspira por um mundo em decadência, o mundo da aristocracia rural. E Perdigoto, outro irmão da moça, bêbado e jogador, é um fascista que planeja organizar uma "milícia patriótica" para conter os colonos descontentes - idéia que interessa a Abelardo I, desde que ela possa ser utilizada para a manutenção da ordem social de que depende sua riqueza.
O último ato, tortuoso e alegórico, ocorre no escritório de usura. Abelardo I foi roubado por Abelardo II. Perdeu tudo o que tinha e vai suicidar-se. Abelardo I lembra a Heloísa que ela se casará com Abelardo II, o ladrão. Morre o homem, mas o sistema permanece. Antes de morrer, Abelardo I mostra-se uma personagem consciente ao discutir com Abelardo II, garantindo que a burguesia está condenada e que os proletários se unirão para tomar o poder.
Mas que até esse dia os dois, a aristocracia rural e a burguesia nacional, continuarão submetidos ao americano, o capital estrangeiro. Apesar de sua consciência, pede uma vela antes de morrer. Recebe uma vela das mais baratas e, falido, o Rei da Vela será enterrado em uma vala comum. A peça termina aos acordes nupciais do casamento de Abelardo II com Heloísa

Vestibular UNICENTRO - Melhores Crônicas: Rachel de Queiroz


A coletânea apresenta crônicas de seis livros diferentes: A donzela e a Moura Torta (1948), 100 crônicas escolhidas (1958), O caçador de tatu (1967), As terras ásperas (1993), O homem e o tempo (1995) e Falso mar, falso mundo (2002). São 71 crônicas selecionadas dos seis livros.

As crônicas de Rachel de Queiroz, sabe-se que a autora, por conta de suas experiências de vida e de sua formação política, procurou tratar de temática social, seja para tratar das questões da seca, seja para falar da difícil vida do trabalhador comum no Brasil. Mas vai além disso ao tratar dos aspectos cotidianos e de sua vida pessoal, cuja reflexão ultrapassa a mera subjetividade, pois aborda assuntos de ordem literária, questões relacionadas à tradição e à modernidade, bem como fatos do cotidiano que a autora teria vivenciado.

Em “O Catalão”, a história de um mestre-curtidor que trabalhava para o pai dela. Tal mestre fez parte do seu imaginário infantil e mais tarde veio a saber que ele morrera lutando na Espanha, por conta das lutas separatistas na Catalunha.

Outras histórias da Rachel criança são lembradas pela mulher já adulta, com mais de trinta anos, e servem para compor o cenário da sua vida pessoal e também da sociabilidade nacional.

Em “O grande circo zoológico”, narra seu encontro com uma trupe circense que viajava às margens do rio São Francisco. Depois de ver os animais e tecer alguns comentários, faz uma análise dos artistas do circo, dando destaque para o fato de que normalmente pertencem à mesma família ou constituem família entre eles. Trata-se, pois, de uma análise sociológica sem academicismos, mas que expressa um modo de olhar para o Brasil que vai do poético ao jornalístico.

As histórias não têm um cenário único: este pode ser o Nordeste em geral, o Ceará em particular ou o Rio de Janeiro, onde morou, ou as viagens que fez, à Europa, por exemplo.

“Retrato de um brasileiro”, que narra a história de um homem comum, que teve suas desilusões amorosos, o desapontamento pelos filhos, o trabalho constante e o pouco reconhecimento dos seus. Em paralelo, trata das eleições pós-ditadura getulista, em que a personagem conclui que valia a pena votar naquele que pagava mais que propriamente em projetos para a coletividade.

“Morreu um expedicionário”, que narra a história de um jovem que acreditava “na verdade, na justiça e na liberdade”, por isso foi lutar pela FEB na 2a Guerra Mundial. O que Rachel parece pretender é a compreensão das razões que levam um indivíduo, jovem, com a vida pela frente, sem a obrigação de lutar em uma guerra, a querer tornar-se mártir por seu país. É o mérito da autora o de tentar as motivações humanas, para o bem ou para o mal.


“O padre Cícero Romão Batista”, como especifica o título, fala sobre o santo popular, o padre Cícero, relatando, de modo um tanto descrente, como veio a se tornar referência no sertão e, aos poucos, em todo o Nordeste.


Em “O senhor são João”, defende o Nordeste contra seus detratores no sul do Brasil, que veriam a região como local apenas de dança e festa. Para Rachel, que era cearense, embora as festas existissem, elas seriam concentradas e poucas, dando certa alegria à população.


Em “Rosa e o fuzileiro”,  conta a história da moça da Ilha do Governador que tinha um
pai que era uma fera, mas que acaba se apaixonando por um fuzileiro naval, mesmo sob as ameaças de morte por parte do pai.

“Vozes d’África”, é interessante saber que o título que faz referência a famoso poema de Castro Alves. Na crônica, temos a história de uma família de negros cuja origem remonta à época da escravidão.

Há também as crônicas sobre personagens misteriosos que fazem parte do imaginário da Rachel menina. É o caso de “O solitário”, história de um homem misterioso que morava
sozinho no sertão. A autora recorda dele e diz que morreu como viveu, de modo solitário. Uma espécie de misantropo. Em “Jimmy”, o retrato em um bar parisiense, com destaque para a personagem do título.

Em “Natal”, em que relata não ter saudade de natal nenhum, nem mesmo o da infância; aliás, nem sequer tem saudade da infância.


Em “Terra”, publicada em O homem e o tempo, fala do campo, mas não à maneira idílica dos árcades, e sim pela óptica do sertanejo e sua vida difícil, de enfrentamento das condições adversas causadas pela seca.

Na crônica “Felicidade” a autora procura mostrar que o sertanejo pode ser muito mais feliz que um morador da cidade grande, pois suas expectativas e desejos são menores, restringem-se às necessidades básicas: moradia, alimentação, vestuário. Isso é o que basta.

Uma das crônicas que têm como objetivo a abordagem da literatura é “O nosso humilde ofício de escrever”. Inicia a crônica dizendo que uma jovem escritora havia lhe perguntado como se deveria fazer para escrever um romance.

Sobre a velhice, há diversas crônicas, como “Não aconselho envelhecer”, “Os Noventa” também revela a preocupação da autora com tempo. Neste caso, porém, é o tempo em geral, e não a do corpo, a do indivíduo. Trata-se de uma crônica que faz um resumo da década, com destaque para o futebol e a perda do pentacampeonato mundial de futebol em 1998; fala sobre os amigos de profissão, os amigos; sobre as origens no sertão cearense, a vida no Rio de Janeiro.

As crônicas de Rachel abordam os temais mais variados. Em “Quaresma”, fala sobre o choque entre a moral, entre o olhar vigilante dos pais e mesmo da Igreja e o desejo de liberdade dos jovens (de todas as épocas, por sinal), que querem antes se divertir que propriamente obedecer a regras. Ou em “Praia do Flamengo”, em que a autora traça um perfil dos frequentadores da praia, de acordo com o horário, expectativas, faixa etária, indo
das mães, babás e crianças até os jovens que querem se exibir mutuamente como meio de conquista, de paquera, passando pelas domésticas, que só podem frequentar a praia no fim do dia, depois de largarem o expediente.








Em resumo, Rachel de Queiroz retrata, nessa coletânea de crônicas, sua visão sobre a vida e sobre o cotidiano, sobre sua experiência pessoal e a observada.

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A ROSA DO POVO


Obras vestibular UNICENTRO: A Rosa do povo: Carlos Drummond de Andrade



Nincia Cecília Ribas Borges Teixeira
Cinquenta e cinco poemas compõem a obra "A Rosa do Povo", que foi escrita por Carlos Drummond de Andrade entre os anos de 1943 e 1945. É o mais longo de seus livros de poemas. O próprio título do poema já traz uma simbologia: uma rosa nasce para o povo, será a poesia para o coletivo? Para tentar saber, vale a pena ler o poema "A flor e a náusea”
Poesia da fase "eu menor que o mundo", toma como tema a política, a guerra e o sofrimento do homem. Desabrocha o "sentimento do mundo", traduzido pela solidão e na impotência do homem, diante de um mundo frio e mecânico, que o reduz a um objeto.
obra é a mais extensa de todas as obras de Carlos Drummond de Andrade, composta por 55 poemas. Os versos, geralmente curtos das obras inaugurais, tornam-se mais longos. Há um predomínio do verso livre (métrica irregular) e do verso branco (sem rimas). Embora em seu próprio título haja uma simbologia revolucionária, sem contar o número expressivo de poemas socialmente engajados, A rosa do povo apresenta grande variedade temática e técnica.
Nessa época, o mundo vivia os horrores da Segunda Guerra Mundial, e Drummond, que nunca fora alheio a questões ideológicas ou humanas, aos sofrimentos ou à dor na cidade ou no campo, escreveu nesse livro (ao lado de outros diversos temas) sua indignação e tristeza melancólica com o mundo, com a violência e com a necessidade de se ter uma ideologia.
Por isso, os estudiosos dizem que este talvez seja o livro mais "politizado" do poeta mineiro. Essa obra, na verdade, funde as ideias sociais que estão em outros dois livros ("José" e "Sentimento do Mundo"). Drummond acrescenta ao tema social seu desencanto, seu pessimismo.
Em muitos de seus poemas deste livro, Drummond confessa a impotência da poesia só para criar beleza. Havia um inconformismo dos artistas com a crueldade que se via no mundo em geral, e uma pergunta que o mineiro Drummond nunca deixou de se fazer: para que serve a poesia? No poema "Carta a Stalingrado", (cidade em que os soviéticos vencem ao alemães) diz Drummond que a poesia foi parar nos jornais:
Stalingrado...

Depois de Madri e de Londres, ainda há grandes cidades!
O mundo não acabou, pois que entre as ruínas
Outros homens surgem, a face negra de pó e de pólvora
E o hálito selvagem da liberdade dilata seus peitos(...)
A poesia fugiu dos livros, agora está nos jornais.
Os telegramas de Moscou repetem Homero

Drummond nos diz de forma tão simples quanto o mundo mudou. A temática engajada, política e socialmente, está sempre presente no livro. Mas há outra, muito forte: usemos a palavra poética; é claro que, apesar de tudo, devemos fazer poesia, pensa o poeta.
Predomina no conjunto dos poemas uma dualidade: de um lado devemos participar politicamente da vida; de outro, só é possível ter uma visão triste e desencantada da vida. Seria a esperança contra o pessimismo? O fato é que, diferentemente do humor de outros livros, nestes poemas CDA tem um tom solene, grave e triste.

CARACTERÍSTICAS

a) Intertextualidade:
 Presença de textos de outros poetas"Nova canção do exílio", paródia e homenagem a Gonçalves Dias:

“Um sabiá
Na palmeira, longe.
Estas aves cantam
Outro canto.”(...)
    
b) Existencialismo

Os temas sociais tratados em "A Rosa do Povo" abrandaram; o que nunca abrandou depois foram as perguntas que o poeta se faz sobre si mesmo neste mundo; a isso chamamos existencialismo, que também faz parte integrante deste livro. Neles, o sentimento de culpa é substituído pela noção de náusea: a náusea existencialista, à maneira de Sartre, que, mais do que uma sensação física de enjôo, é uma situação de absoluta liberdade de quem a vivencia.


Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
Ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
Garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
(...)
É feia. Mas é realmente uma flor.
A Flor e a Náusea

c) Culpa e a responsabilidade moral

Carrego comigo
há dezenas de anos
há centenas de anos
o pequeno embrulho. (...)

Não ouso entreabri-lo.
Que coisa contém,
ou se algo contém,
nunca saberei.

d) Registro puro e simples de uma ordem política injusta

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto (O Medo)
e) a passagem da náusea à perspectiva de uma nova sociedade (em termos concretos e em termos abstratos) -


f) Solidão, angústia e incomunicabilidade

É a hora em que o sino toca,
mas aqui não há sinos;
há somente buzinas,
sirenes roucas, apitos
aflitos, pungentes, trágicos,
uivando escuro segredo;
desta hora tenho medo.(Anoitecer
)

g) A morte

Barbeio-me, visto-me, calço-me.
É meu último dia: um dia
cortado de nenhum pressentimento.
Tudo funciona como sempre.
Saio para a rua. Vou morrer

OBRAS LITERÁRIAS VESTIBULAR-UNICENTRO : MELHORES POEMAS DE MANUEL BANDEIRA




Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
 Sou poeta menor, perdoai!



                                                                                                      Manuel Bandeira, “Testamento”




MANUEL Carneiro de Souza BANDEIRA Filho, professor, poeta, cronista, crítico, historiador literário e terceiro ocupante da Cadeira 24, eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães e recebido pelo Acadêmico Ribeiro Couto em 30 de novembro de 1940, nasceu no Recife no dia 19 de abril de 1886, na Rua da Ventura, atual Joaquim Nabuco, filho de Manuel Carneiro de Souza Bandeira e Francelina Ribeiro de Souza Bandeira.

Passou a infância no Recife, que descreve liricamente em seu poema “Evocação do Recife”, em que vemos desfilar, musicalmente arranjadas, cenas de recordações da infância de um menino do Recife de fins do século XIX. Neste poema, aparecem algumas das figuras que povoaram o mundo infantil de Bandeira e que se tornariam familiares aos amantes de sua poesia.

MELHORES POEMAS

  • A obra foi organizada em 1984 com poemas expressivos de Bandeira.
  • Dentre os principais assuntos podemos destacar a solidão, a dor e o medo da morte.
  • O cotidiano de Santa Tereza, onde morava, aparece nos seus textos como crônicas marcadas por elementos sensoriais (visão, audição, tato, olfato, gustação).

CARACTERÍSTICAS DA OBRA


  • Uso do verso-arremate (ou Fiinda): é uma conclusão normalmente separada por travessão.
  • Composições líricas tradicionais reconstituídas: o poeta reconstitui, por exemplo, cantigas de amor medievais.
  • Referências explícitas a Portugal: o poeta reconhece sua ligação com a poesia portuguesa inclusive dedicando versos a poetas como António Nobre e Camões.
  • Influência do Parnasianismo e do Simbolismo.
  • Como poeta modernista, Bandeira apresenta características marcantes: a liberdade formal e temática, a revolta contra o convencionalismo (Parnasianismo), a valorização do cotidiano, a expressão literária carregada de coloquialismos (linguagem simples do dia-a-dia), o domínio do verso livre, o contraponto entre as situações da realidade exterior e a interior, expressões antipoéticas).
  • O passado, a infância, a confidência – herança do Romantismo.
  • O tédio, a morte e a melancolia.
  • A presença do popular e do folclórico.
  • A fuga do espaço – o escapismo.
  • A poesia erótico-sentimental.
  • O cotidiano, a ternura e a solidariedade.
  • O humor amargo.
  • As experiências concretistas.


 
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