30.9.16

Crônica - O respeito efêmero



  Ri. Muito. Era tudo que podia fazer.

  Havia acordado a pouco e checava as notificações da madrugada, que inundavam meu celular. Uma delas realmente me chamou atenção, minha prima, uma das melhores pessoas que já conheci, me falava sobre uma festa que achava desrespeitosa. Ela, cristã praticante há boa parte dos seus 25 anos, sentia-se ofendida pela próxima festa que ocorreria na cidade. Decidi saber do que se tratava.

  “Não escolhi, mas estou esperando”. Deparei-me com um evento no Facebook onde pessoas buscavam pares para seus amigos, senti certa ironia nas publicações que li, mas em geral achei tudo muito engraçado. Ela não achou. Explicou-me que tal tema era chacota de um movimento sério na comunidade cristã. “Eu escolhi esperar”. Senti empatia.

  Particularmente não sou devota de uma religião específica. Tento praticar o hinduísmo. É difícil, trabalho diário, constante. Porém gosto de acreditar. Saúdo Rá, o deus egípcio do Sol, todas as manhãs. Gosto de ouvir tempestades porque acredito que Thor está batendo seu martelo de felicidade ou desgosto. Acredito no poder dos Xamãs e na sua espiritualidade. Também creio nas orações diárias que minha avó, católica apostólica romana, faz por mim e acredito ferozmente que o deus dela me protege de alguma maneira. Não vou nem entrar na parte sobre alienígenas ou sobre a nossa consciência cósmica porque posso encher um livro de teorias sobre isso.

  Aprendi, não há muitos anos atrás, a respeitar as escolhas alheias. Porém, não ache que isso vai me impedir de levantar e defender meus ideais sempre que necessário. E esse é o ponto, são meus ideais, eu posso ser maluca por acreditar neles, mas ninguém pode me impedir de acreditar. As pessoas podem achar insano acreditar em alienígenas, já eu, tenho certeza de que fui abduzida em algum momento da minha vida.

  Dito isso, quero passar a uma observação, por que usar a crença -e não apenas a religiosa- alheia como motivo de chacota?

  Não me refiro especificamente ao episódio da festa, mas sim ao comportamento mundial que impede os seres humanos de seguirem felizes com a sua ‘pira’ de vida sem interferir na ‘pira’ alheia. Por que nós temos que criticar tudo que não faz parte da nossa seleta de verdades universais? Não podemos simplesmente ter uma epifania universal de que até hoje ninguém está totalmente certo, nem totalmente errado? Acredito que é preciso sempre estar em busca do meio termo.

  A contra ponto, as redes sociais são inundadas de publicações onde o respeito a tudo e a todos prevalece. Assim como os grupos que exigem respeito para suas crenças, mas utilizam o desrespeito a outras para firmar sua reivindicação. Como isso é possível?

  Aprendemos mais quando ouvimos sobre as experiências alheias e sobre as motivações que levam a tais crenças. É como a metáfora da caixa de bombom, você compra a caixa, mas não necessariamente gosta de todos os bombons que estão nela.


  A questão é, a sua caixa é melhor que a do outro? 


Amanda Crissi

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