7.12.16

O cão

            Desci do ônibus por volta das dezesseis horas. O sol estava quente e fazia as velhas se esconderem debaixo dos guarda-chuvas. Eu ouvia Beatles. Passou por mim uma dessas senhoras com sua cabeça branca fresca na sombra. Desci as escadas do ônibus e caminhei pela calçada, indo para casa. Atravessei a rua pela faixa de pedestres – ao menos, nesse caso, se fosse atropelada, a errada não sou eu. Andei pela calçada quebrada, onde qualquer cadeirante não poderia andar, mostrando que a acessibilidade não é o forte da prefeitura (ou quem sabe ela seja necessária apenas no centro, onde a campanha eleitoral mostra).
            Quando virei à direita, na outra esquina, vi uma catadora de lixo. Seu carrinho não estava nem perto de cheio, e tinha apenas alguns papelões, garrafas e outras coisas que não consegui identificar. Ela estava só. Protegia a cabeça com um boné velho, e tinha um cachorro maltrapilho que provavelmente a seguia esperando alguma comida.
            À minha esquerda, um pintor coloria a parede do supermercadinho na esquina. À direita, um pet-shop funcionava normalmente. Passei pela mulher e segui rumo a minha casa. Então, ouvi um grito. Não o grito que uma criança daria, se caísse e ralasse os joelhos. Nem o grito de um adulto, estressado e frustrado, mas sim, o grito do cão. O cachorro sujo e machucado que a seguia, magrelo e fraco, que a acompanhava debaixo do sol escaldante de trinta graus. O cão, infeliz e sem noção da tristeza que é a sua vida (ou quem saiba até tenha), que seria feliz se alguém pudesse retribuir sua confiança. Esse cachorro, apanhava. Virei-me e dei de cara com a mulher, com sua feição miserável e raivosa, batendo com um pedaço de madeira no cão, gritando e xingando-o. Alguém na esquina parou para olhar.
            Eu olhei novamente e vi que o cachorro estava parado, deitado onde havia grama, na sombra, cansado, exausto, sem forças, enquanto que a infeliz queria sair de lá. Gritava para quem quisesse ouvir. Logo ela cansou, e sentou-se no chão. O pintor veio e falou algo pra ela. O cão ainda reclamava da dor. Eu baixei os olhos, e encarei o chão, numa frustração incrível, numa perfeita noção de covardia, de impotência nesse caso, como alguém que não pode fazer absolutamente nada além de observar, estupefata e indignada.
             O sol continuava quente, e caminhei para casa, perturbada. 
Texto: Marina Pierine

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