28.6.16

Por trás do espelho

Cartaz do filme

O Jornalismo Cultural não tem uma data de nascimento específica, como bem diz Daniel Piza em seu livro intitulado “Jornalismo Cultural”. Aprendi que esta é uma área do Jornalismo dedicada a informar e opinar sobre bens culturais na sociedade, relacionando ao mesmo tempo com comportamentos, hábitos sociais, política e economia.
Mas o que é cultura? O que eu posso usar para opinar e relacionar com os comportamentos atuais? A animação Zootopia da Disney é cultura ou apenas um produto do nosso mercado cinematográfico?
Cito este filme porque me lembro de ter pensado em várias questões de identidade e personalidade enquanto o assistia com a minha família. Ele pode ser visto sim como cultura e relacionado com a nossa sociedade, ainda mais quando paramos para pensar que todo o filme trabalha com antropomorfismo, a atribuição de características humanas aos animais.
Entretanto, esta resenha não é do Zootopia, mas sim do mais novo filme do País das Maravilhas, “Alice através do espelho”. A estreia brasileira aconteceu no dia 26 de maio. Também da Disney, o segundo filme da franquia é dirigido por James Bobin (Os Muppets) e tem Tim Burton como produtor. Burton dirigiu o primeiro filme, com bilheteria de 4.295.178 milhões de ingressos vendidos no Brasil até 20 de junho de 2010. Este ano ele esteve no Brasil para a exposição “O mundo de Tim Burton”. O cineasta aproveitou a passagem para conhecer o carnaval carioca e assistiu de camarote ao desfile das escolas de samba.
O time de atores é formado por Mia Wasikowska (Alice), Johnny Depp (Chapeleiro Maluco), Sacha Baron Cohen (Tempo), Anne Hathaway (Rainha Branca) e Helena Bonham Carter (Rainha Vermelha). Cortem as cabeças!
Antes de assistir ao filme, estava conversando com a Tia Rose em Curitiba. Ela dava dicas para minha amiga de que as noras precisam ter uma boa relação com as sogras, porque com a própria mãe as noras irão competir quem faz uma receita melhor, por exemplo. Logo no começo do filme a Alice diz para sua mãe que não quer ser igual a ela. Alice é uma capitã de navio, aventureira e descrente do impossível, não uma dama como sua mãe. Às vezes me sinto muito parecido com meu pai e é difícil admitir isso. Somos criados a figura dos pais, mas queremos ser versões melhores, não é?
Uma mulher capitã? Os homens riem de Alice. Acontece que a personagem exemplifica claramente uma questão feminista, trabalhando com a figura da mulher solteira (correu do casamento no primeiro filme) e da mulher trabalhadora ocupando um cargo de liderança, libertando-se das amarras impostas pela sociedade e conquistando cada vez mais espaço com o tempo.
Tempo é um personagem importante em Alice através do espelho. Ele é o “vilão” da história. Alice precisa aprender que com o Tempo não se brinca. O Chapeleiro fica doente depois de relembrar a morte de sua família, então Alice planeja voltar no tempo para mudar o passado e salvar todos. Não vou contar nada comprometedor.
Quem também quer mudar o passado é a Rainha Vermelha, mas o Tempo, personagem, alerta que ela não pode olhar para ela mesma. Isso criaria o que seria um paradoxo da série “12 monkeys”, onde o encontro de alguma coisa do futuro com o passado “quebraria” o tempo.
Resumo da história contado, quero abrir espaço para comentar sobre a cena mais cômica do filme. Imagine quantos trocadilhos podemos fazer com o tempo. Agora imagine o Chapeleiro Maluco e seus amigos do País das Maravilhas tomando chá com o Tempo e fazendo trocadilhos com ele. É de perder a hora. Cada segundo vale a pena. Citando esses nomes, Horas, Minutos e Segundos também são personagens do filme.
O País das Maravilhas é um espetáculo à parte. Tudo padrão Disney de efeitos especiais. A própria forma de viajar no tempo é original no filme. A cromosfera, objeto que controla o tempo, se transforma em um meio de transporte com controles similares ao de um navio e o passado, presente e futuro são representados como ondas em cima e em baixo da tela, fazendo parecer com que a Alice está navegando pelos “mares da vida”.
Voltando ao passado o espectador e os fãs podem conhecer mais sobre o universo do filme e sobre as histórias das personagens. Podemos ver como foi a infância do Chapeleiro Maluco e os eventos que separaram as irmãs, Rainha Branca e Rainha Vermelha, além de descobrir como a segunda ficou má.
Toda a aventura serve para Alice aprender lições e saber aplicá-las em sua vida. Mais do que o Chapeleiro Maluco, é ela quem precisa aceitar que o tempo leva as pessoas. Uma das cenas é dela acordando em um hospital psiquiátrico, abrindo margem para dúvida: é tudo imaginação ou realmente existe o País das Maravilhas?

Você já assistiu ao filme? Quais foram suas impressões? Comente o que você viu por trás do espelho.

Texto por Marcelo Junior.

27.6.16

Crítica de Cinema: Um cisne à procura de suas asas

Cartaz do filme "Cisne Negro", lançado em 2011

    É com um sonho da jovem bailarina Nina Sayers, que ganha vida através da interpretação de Natalie Portman, que Darren Aronofsky dá início ao intenso e perturbador suspense psicológico de Black Swan.
   Assim como em seus filmes anteriores, Aronofsky traz uma narrativa centrada na complexidade psicológica e nos problemas emocionais da personagem de Cisne Negro, uma bailarina que encara todo tipo de sacrifício, tanto físico quanto psicológico, em busca de uma inquietante perfeição. Nina mora com sua mãe, uma ex-bailarina, que deseja ver na filha a carreira que ela não conseguiu alcançar. Para isso, ela age de forma extremamente controladora com Nina, seja nas regras com sua alimentação e com seus horários ou no balé tecnicamente impecável que ela deve apresentar. Com 28 anos, Nina ainda está presa ao seu “eu” puro e inocente, qualidades refletidas em seu quarto infantilizado, cor de rosa e cheio de bichos de pelúcia. A bailarina se esforça para seguir os passos da mãe, que além de controladora também a superprotege, mostrando uma relação de dependência entre ambas e uma impressão de que Nina é propriedade única e exclusiva de sua mãe.
   O delírio e astúcia da trama começam a despontar quando Nina consegue o papel principal da obra de Tchaikovsky, a favorita “O Lago dos Cisnes”, que será apresentada, nas palavras do diretor artístico da companhia de balé, Thomas Leroy (Vincent Cassel), em uma versão “real e visceral”. Nina também se torna a nova “primeira bailarina” da companhia, e, com o papel de Rainha dos Cisnes, ela terá, como tradição, que interpretar ambos: o Cisne Branco e o Cisne Negro. O Cisne Branco não é o problema, já que Nina partilha com o personagem a inocência, delicadeza e graciosidade, características enclausuradas em si desde a infância, o que a torna perfeita para o papel. Porém, o grande desafio da bailarina é se ela conseguirá de fato manter sua posição como Rainha dos Cisnes e interpretar o Cisne Negro que é, aparentemente, seu completo oposto e representa a malícia, a sensualidade e sedução. Para isso, Nina precisará acordar seu lado selvagem que foi reprimido ferozmente sua vida inteira. 

Ensaios na companhia de balé

    A presença de uma nova bailarina surge, a atraente e despretensiosa Lily (Mila Kunis), que se encaixa perfeitamente no papel de Cisne Negro. Diante deste cenário, Nina enxerga na bailarina tudo o que lhe falta para interpretar o perverso gêmeo negro com maestria e desencadeia em si a necessidade de ser como Lily, despertando uma paranoia obsessiva em busca de seu adormecido lado sombrio, que prejudica seu equilíbrio psicológico. 
  Para atingir seus objetivos, em vários momentos a protagonista procura tomar posse do que é do outro, desde materiais até o comportamento. De início, ela toma para si objetos pessoais de Beth (Winona Ryder), a ex-primeira bailarina. Mais tardiamente, Nina vem, então, a tomar seu lugar na companhia. Ela faz o mesmo com relação à Lily, da qual ela almeja obter sua personalidade espontânea, agressiva e sensual, caraterística do Cisne Negro. Também, fica implícito se Nina não tomou posse até mesmo do que era a figura da mãe, que, devido ao controle tão árduo que dispõe da vida da filha, tenha impedido talvez o desenvolvimento de uma personalidade própria da menina.
  Nina passa por inúmeros conflitos internos, e tem agora uma mente conturbada que confunde realidade com fantasia. A presença constante de espelhos nas cenas nos retrata o conflito que a protagonista vive interiormente, em que a Nina em frente ao espelho não é a mesma que aparece em seu reflexo. Ela vê uma Nina que é a personificação do Cisne Negro. Com seu lado sombrio despertando e tomando controle de sua mente, a bailarina alucina várias mutações físicas em seu corpo, como feridas em suas costas que posteriormente dariam lugar ao crescimento de suas “futuras asas”; do mesmo modo que a penugem acinzentada de um pequeno filhote de cisne posteriormente dá lugar a uma sublime plumagem. A pele apresenta toda uma questão de diálogo, característica constante nos filmes de Aronofsky, que passa através do contato com a mesma as angústias, sofrimentos e aflições do personagem, sentidos em carne viva pelo espectador.
  O papel de Rainha dos Cisnes, que vem destruindo intensamente a sanidade de Nina, leva-a a visitar Beth e devolver seus pertences. Se quando ela os tomou demonstrava o desejo de posse total do lugar de Beth, agora ela insinua o desgosto e recusa do mesmo.
   O tão aguardado dia de viver o seu sonho como Rainha dos Cisnes transforma-se em verdade para Nina. A bailarina que, até então, vivia como uma menina doce, pura e graciosa, desempenha com excelência o Cisne Branco. Mas, momentos antes de interpretar o emocionante e ameaçador Cisne Negro, Nina passa por um colapso psicológico em seu camarim. Ela fantasia estar lutando com Lily, dona do perfil adequado para o próximo ato da apresentação, o que não passa de mais um ilusão da mente já enlouquecida da bailarina, pois na verdade, ela luta consigo mesma, com seu Cisne Negro interior. Vivendo durante 28 anos em uma personalidade que não a pertence, Nina chegou ao seu inevitável momento de maior vulnerabilidade, que a permitiu despertar o seu outro “eu”. O espelho quebrado durante a luta simboliza a posse de seu gêmeo negro adormecido sobre si. A evidência aparece ao longo de sua performance como tal, em que Nina aparece tomada por características físicas do Cisne, com asas negras que surgem em suas costas, perfeita.

Nina, na apresentação "O Lago dos Cisnes"

   De maneira fascinante, Black Swan veio para mostrar com realismo o mundo do balé por trás das cortinas de veludo. O espetáculo de graça e leveza com belas danças que assistimos para nosso prazer é, nos bastidores, um show de humilhações, sacrifícios, cansaço e sofrimento.
   Em um roteiro intenso que mistura ficção com realidade, nos vemos diante da incerteza e da possibilidade de diversas interpretações dos acontecimentos. Aronofsky explora em seus personagens suas personalidades psíquicas, abordando de forma sensível e inteligente o limite do ser humano e obrigando o espectador a vivenciar as sensações dos próprios protagonistas. Ele mostrou a degradação de seus personagens em busca de seus sonhos individuais em Réquiem para um Sonho (2001), os limites físicos ultrapassados que anseiam por mais um momento de glória do protagonista de O Lutador (2008) e nos surpreende com os diversos princípios da psicologia inseridos em Cisne Negro (2010). O diretor consegue, em sua narrativa, transportar o espectador para a insegurança e instabilidade psíquica do personagem. A tensão aparente do roteiro fica por conta da edição rítmica, dos enquadramentos, elementos visuais, a clara caracterização da protagonista e a trilha sonora gritante.
    A atuação de Natalie Portman foi inegavelmente incrível. Completamente aberta ao papel, a atriz mostrou um desempenho brilhante com a personagem, inclusive como bailarina, que a levou a ganhar o Oscar e o Globo de Ouro de Melhor Atriz com a interpretação da inicialmente encantadora Nina Sayers que, cada vez mais desequilibrada, adquire um comportamento autodestrutivo em busca de sua verdadeira personalidade.
    Cisne Negro vai além da fantasia e intensidade reveladas em cada cena. É um drama que demonstra da forma mais interessante possível o psicólogo humano e seus devaneios.



Texto: Marina Pierine

26.6.16

Guarapuava em frente



Em 2010, Guarapuava tinha uma população de 167.328 mil habitantes, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Atualmente, com população ainda maior (estimada em 178.126 mil habitantes no ano passado), o município se prepara para receber dois centros de compras.
O primeiro a ser anunciado foi o Guarapuava Garden Shopping, a ser desenvolvido e comercializado pelo grupo Tenco. A área construída na rua XV de Novembro, no bairro Morro Alto, será de 41.186 m², com um total de 149 lojas e quatro salas de cinema. A etapa de terraplanagem foi iniciada em junho de 2015 e a inauguração que estava prevista para este primeiro semestre de 2016 ainda não tem uma nova data, pois o projeto está passando por alterações.
       Posteriormente, o Shopping Cidade dos Lagos também foi apresentado. O planejamento e a comercialização são da Directa Shopping Centers, com o empreendimento do grupo Cilla de Guarapuava e do grupo Rotesma de Chapecó. A área construída no futuro bairro planejado de mesmo nome será de 48.000 m², com 148 lojas, incluindo as de alimentação, mais um hipermercado e quatro salas de cinema. O hipermercado será uma extensão do Dal Pozzo, atacadista que atende no bairro Vila Bela. A inauguração da primeira fase, com o hipermercado, está prevista para dezembro deste ano.
          Ambos os centros estão sendo construídos na zona norte do município, valorizando essa região e os bairros existentes. Ao redor dos shoppings se esperam novos empreendimentos e novos valores do mercado imobiliário. A configuração de centro e zona sul como regiões mais caras pode ser alterada com essa distribuição dos centros de compras. Mesmo sem considerar questões de valorização, mas olhando para questões de deslocamento, os moradores de bairros tradicionais como Santa Cruz e Trianon terão que cruzar a cidade para chegar aos centros. “Para mim é inviável, ficou muito longe. Vou apenas aos finais de semana”, contou o lojista Igor Martin, que mora e trabalha no Santa Cruz. Já o estudante Luis Eduardo Bussolotto, que mora próximo ao Parque do Lago, comentou que para ele não faz diferença. “Eu tenho como ir. Penso que vai ficar um comércio distribuído entre o centro da cidade e as grandes lojas que virão com esses shoppings”, disse.
          O fato dos shoppings serem anunciados em um momento de instabilidade financeira no país e com aumento da taxa de desemprego, permite ofertar um grande número de vagas de trabalho, tanto para as construções, quanto para as lojas e o funcionamento dos shoppings finalizados.
          A chegada destes centros altera mais do que a economia, o mercado de trabalho e a geografia da cidade. Os guarapuavanos se preparam para mudanças na rotina e nas escolhas de entretenimento. Uma delas é sobre a opção cinematográfica da cidade, atualmente um monopólio do Cine XV. O mesmo vai operar nas salas do Cidade dos Lagos, mas o proprietário Joel Horbux pretende manter o estabelecimento do centro. “É outro conceito, um novo cinema, um padrão maior e mais atual. A gente começa o projeto agora em agosto”, falou sobre o cinema do shopping. Nas salas do Guarapuava Garden Shopping ainda não foi divulgado qual rede irá operar.

Vindo de uma cidade grande com quatro centros de compras, percebo a diferença entre o modo de vida que encontrei aqui em Guarapuava e os costumes já rotineiros de contar com passeios aos shoppings da cidade que vim. Com as construções aqui comecei a pensar em quanto tempo os hábitos dos guarapuavanos serão alterados? Quantos irão escolher um passeio no shopping ao invés de um passeio no Parque do Lago? Quantos deixarão o comércio do centro para comprar nos shoppings? Quantos passarão a frequentar regularmente as futuras praças de alimentação? Eles optaram por refeições saudáveis ou pelas novas opções de comida rápida? Se prenderão mais ao Shopping Cidade dos Lagos? Ou ao Guarapuava Garden Shopping?

Texto: Marcelo Junior.

 
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