21.11.16

Exposição arquétipos de Sonia Lyra está aberta a visitação no Centro de Artes Iracema Trinco Ribeiro

A exposição Arquétipos da analista junguiana, psicóloga, pesquisadora, escritora e fotógrafa Sonia Lyra já está aberta a visitação no Centro de Artes Iracema Trinco. A mostra conta com 19 fotografias e personifica diversas divindades, arcanos do tarô e outras forças, como por exemplo, a morte e o louco, presentes no Tarô, o deus romano Hades, e Medusa da mitologia grega, além de bruxas e ninfas.
A artista revela que desde o seu primeiro contato com a fotografia já se interessou em fazer esse tipo de fotografia presente na exposição “A primeira fotografia que fiz foi de um orixá, e me apaixonei tanto que, além de me inspirar a produzir as representações de seres e sentimentos, hoje tenho essa foto em destaque em uma das paredes da minha casa”, conta a artista.
As fotos foram produzidas por Sonia Lyra e contaram com a parceria do curador Alberto Melo Viana, que além de realizar o trabalho de edição das fotos também organizou toda a exposição.  “Convido as pessoas para as fotos e peçam que escolham o figurino. O envolvimento é tão grande que as emoções afloram. Mas é na edição que os arquétipos se revelam. Às vezes você acha que uma foto não tem nada a ver, mas quando começa o trabalho de edição os personagens vão se revelando e tudo fica maravilhoso”, conta Sonia.

A exposição está aberta ao público até o dia 16 de dezembro, das 8h às12h e das 13h às 17h, no Centro de Artes Iracema Trinco que fica na Rua Marechal Floriano Peixoto, 1857, Centro.


Karina Soares

Quantas vidas cabem em uma só

                            Vou fazer direito. Talvez com engenharia eu ganhe mais. Mas eu gosto mesmo é de história. Por fim passar os dias escrevendo é mais gratificante. Entrei. Faculdade. Quando me formar quero levar esses amigos comigo. Melhor pessoa da faculdade. Eu a odeio. Nunca mais quero vê-la. Meus amigos agora sei quem são. Não tem um aqui agora. Eu nem gosto de jornalismo. Talvez história seja uma boa. Serei professora. Terei uma casa grande. Com piscina. Não. Um apartamento. Serei minha companhia. Ele é tão lindo. Quero viver com ele. Seremos só nos dois no nosso apartamento. Quero uma moto. Não. Carro. Qualquer carro. Filhos. Filhos dão muito trabalho. Cachorros. Quero uma empregada. Não, nos se ajudaremos. Precisamos nos formar. Precisamos ganhar bastante para ter uma vida confortável. Talvez dinheiro não seja tudo. Gostamos de conforto.  Na verdade ainda prefiro minha própria companhia. Quero aproveitar o agora. Quero festas assim todo fim de semana, para sempre. Serei só eu e festas. Quero uma casa, apartamento não dá pra fazer festas. Cansei. Preciso ganhar mais. Quero mais tempo em casa. Quem precisa de festas quando se tem Netflix em um fim de semana?. Me formarei ano que vem. Não quero trabalhar nisso. Mas eu gosto. Ganha pouco. Vou fazer um concurso. Quero ser professora. Professores também não ganham tanto. Vou fazer o que eu gosto! Me formei. Preciso trabalhar. Filhos? Marido? Não quero. Sou nova. Estou ficando velha. Preciso formar uma família. Eu posso ser minha família. Eu tenho um cachorro. Nossa. Quantas vidas cabem em uma só né?


Texto: Daiane Cristina

18.11.16

Nas asas de Bruno


Bruno voa, livre, leve, sonhador. Bruno é mais do que apenas sonhar. Bruno realiza, inspira, incentiva e mostra que o mundo é pequeno perto do quão grande podemos ser.
Caminhando, sem cantar, mas através das tatuagens escrevendo sua canção, é na porta da sala onde muitas pessoas entram rabiscar o corpo que ele aparece com luvas e máscara, deixando apenas os olhos e tatuagens da região do rosto a mostra. Um por um os clientes entram na sala e conhecem um pouco do talento de Bruno, levando consigo seu trabalho e o que mais gosta de fazer... Tatuar.
É em um estúdio no centro de Guarapuava que Bruno, 19, é encontrado. O estilo largado, boné de aba reta, a camisa larga e mochila nas costas marcam a chegada ao Tiva tattoo, local de trabalho do tatuador. Todos que entram no lugar não desgrudam os olhos do homem alto, magro e cheio de estilo que atrai olhares de admiração, estranheza e dúvidas. Nem todos que chegam ali realmente sabem quem ele é, porque escolheu ser assim e da graça que vê na vida que leva.
Vida que descobriu aos 13 anos em uma brincadeira com amigos, onde através de máquinas caseiras uns tatuavam aos outros. O amigo “tatuador” passou mal e Bruno precisou tomar a frente. Foi do improviso que nasceu a paixão pela arte. “Eu comecei a tomar gosto, me interessar”, lembra da época em que tudo começou. E desse gosto nasceu um a um dos 20 desenhos que possui no rosto, o trevo, guarda-chuva, lábios e palavras são algumas das tatuagens que descendo com uma caveira desenhada no pescoço nos mostram o porta desenhos que se tornou.
“Eu não tinha muita ideia de levar pra frente e nesse momento eu conheci um cara. Acho que era pra ser. Eu estava desanimado e quando o conheci ele me ensinou algumas coisas e ai não parei mais”, recorda do momento em que decidiu levar a tatuagem como profissão. Aos 15 anos tatuar se tornou frequente, os clientes iam até sua casa e faziam com que hoje ao voltar as memórias um sorriso brote em seu rosto.
Bruno se tornou assim, alegria estampada e orgulho de ser quem é. Mesmo quando lembra, com um olhar vago e distante, das dificuldades que passou, principalmente quando precisou decidir entre estudar e tatuar. Mesmo quando precisou sair de casa aos 16 anos e seguir sua própria vida. Mesmo quando percebeu o choque no rosto de sua mãe ao ver a âncora tatuada no rosto do filho, primeira tatuagem que fez na face. Bruno não desistiu de se tornar quem queria, e foi através disso que alcançou o sustento que hoje tem para si. “Arrepender não é a palavra, tudo marca a história que foi, sabe”, afirma.

Cada traço em seu corpo, piercings, modificações são tratadas como memórias das dificuldades, tristezas e alegrias vividas. Os olhos tingidos de preto pela técnica eyeball tattoo, em que se injeta tinta preta na camada de proteção dos olhos, a língua bifurcada, cortada ao meio, e os alargadores, um em cada lado do nariz, deixam para Bruno a lembrança de viagens e aventuras para o Rio e Curitiba. Ambas com apenas dinheiro de ida, um sonho e sem formas de passar muito tempo nas capitais. O jovem conta as histórias com pausas citando a forma como amadureceu depois de cair de cara, sem medo nas suas próprias vontades. A voz sempre constante soltar um riso calmo quando lembra que superou tudo que poderia lhe impedir de conseguir seus sonhos. “Eu amadureci muito, muito mesmo. Fui criado de um jeito meio largado e precisei quebrar a cara para aprender e a tatuagem foi o que me ensinou a não julgar os outros”, conta quando lembra de suas viagens.
E é nos olhos pintados que Bruno mais se encontra, neles está à parte modificada de si que mais gosta. Foi em uma quinta-feira, mesmo sem a crença da mãe no que iria fazer que realizou o procedimento. “Acho que ela não acreditava muito. Eu viajei 24 horas, trabalhei uma semana pra ter dinheiro pra voltar para Guarapuava e ele pintou meu olho”, fala sobre o fato que aconteceu no período de seus 17 anos. O jovem passou pelas máquinas de vários tatuadores, um deles estava nessa viagem que fez a Curitiba para bifurcar sua língua. Era na “parceria”, como cita, com um amigo que iria ao estúdio para o procedimento. O curitibano, seu amigo, com medo desistiu do processo, deixando Bruno sozinho e perdido na cidade. A dor, os poucos recursos e falta de conhecimento da grande Curitiba fizeram a procura de seis horas pelo lugar pra ficar. No percurso a língua sangrava, mas a sensação era minúscula perto do preconceito das pessoas que se afastavam pouco a pouco. “Eu ia falar com alguém e as pessoas achavam que eu ia roubar”, relembra a situação.
“Viver perfeitamente sem depender de ninguém”, assim Bruno define seu trabalho como tatuador aos 17 anos. Dentre os sonhos que possui hoje estão comprar carro, tirar carteira, ter seu próprio estúdio, viajar para fora do país e dar um futuro bom para sua filha de oito meses. A menina, quando é envolvida em perguntas sobre tatuagem, arranca sorrisos de Bruno, deixando claro no riso frouxo que é a união de duas de suas paixões e nas palavras que saem é com certeza: quer e apoiará se a filha se tatuar. O tatuador construiu sua carreira e foi convidado a trabalhar em Portugal, na mesma época em que descobriu que iria ser pai. A família formada por Bruno esteve em primeiro lugar, às aventuras de antes foram derrubadas pela responsabilidade e a única definição que usa é “a base de tudo que me tornei, da minha responsabilidade”.
No começo a ideia de ser pai vinha com a de não ter um salário fixo e o baque de pensar em largar o trabalho como tatuador e seguir outra carreira. Apoio, força de vontade e otimismo não o deixaram abandonar o que mais gosta. Bruno aprendeu desde o inicio que na dificuldade encontraria formas de se reerguer. E foi em uma dessas dificuldades que realizou mais um sonho: o de ficar suspenso em ganchos. Durante 34 minutos Bruno deixou sua vida toda passando pela cabeça enquanto a dor da pele rasgada ia sumindo aos poucos, foi em uma convenção de tatuagens em São Paulo que o realizou.
 Nessas escolhas que para uns parecem estranhos é que vai se encontrando. Os olhares maldosos são deixados de lado e exprimidos pelo carinho que recebe de algumas pessoas, outras tem medo de o tocar, mesmo assim, nada impede com que se orgulhe de ser quem é... “Eu to bem realizado sabe, apesar de tudo, foi bem na louca. Eu dei sorte na vida, tinha tudo para acabar com minha vida. Sai de casa cedo, parei de estudar, enchi meu rosto de tatuagem, aos 17 anos já tinha 14 tatuagens só no rosto. Eu levei muita sorte na vida, realizei tudo o que queria até agora”, afirma sobre como se sente em relação a sua vida hoje.


Texto: Sabrina Ferrari 

Bruna Thimoteo Freitas




            
              Bruna, 22, publicitária formada há sete meses pela unicentro, hoje atua na área fotográfica em Guarapuava, dentro dessa possui um projeto pessoal chamado fotografia&documento, o qual retrata pessoas seguindo o modelo de documentários, sua grande paixão.
            Além de trabalhar com fotografia buscando mostrar o “eu” de cada um, ela tenta transmitir socialmente a forma como essa pessoa se sente e como deve ser recebida. Seu projeto possui uma ligação entre Bruna, retratados e público, através disso alcança o cunho social que deseja, o cunho de aceitação pessoal e por parte dos que veem seu trabalho.
A jovem também é criadora do MOVE, movimento por novas ideias que teve início em 2014, em que o começo veio como uma forma de ajudá-la a passar por um momento difícil. Agora o projeto passou a auxiliar não só sua mente fundadora, mas diversas pessoas através de palestras. O MOVE tem cunho social, cultural, político e já está em andamento há dois anos.
O movimento segue o conceito do congresso Ted, sem fins lucrativos, voltado a ciência, tecnologia, sustentabilidade e inovação, com intuito de disseminar ideias. O Ted já possui mais de trinta anos de existência e assim como o MOVE organiza palestras de curta e longa duração.
            Com a ideia pronta, Bruna começou a escolher convidados que também possuem eventos, projetos e se envolvem com trabalhos sociais, independente da área de atuação. Os temas são definidos a partir do que está em “alta” na sociedade e precisa ser debatido. Já foram realizados 3 eventos de grande porte e um menor, todos gratuitos.
            A publicitária não imaginava a proporção que o projeto tomaria e desde o primeiro precisou assegurar um local que pudesse receber muitas pessoas, a procura foi grande e começou com cento e trinta pessoas assistindo. “Desde o primeiro evento eu vejo que as pessoas gostam. Ela vêm e me falam que ouviram algo e a partir disso se tocaram no que poderiam fazer. Isso é bom, elas me dão esse feedback, elas querem mostrar e me motivar, dizer que tá dando certo”.

            Através de seus trabalhos ela se encontra como um ser social, político e que tenta se identificar com a vivencia de outros. É assim que Bruna sente que cumpre seu papel na sociedade, lutando de algum modo para ajudar quem precisa se descobrir ou demonstrar, e é assim que sente que está atuando de forma política, social e humana, dando a mão aos que querem de alguma forma apoio. 

Texto: Sabrina Ferrari 

15.11.16

Yoga: exercício, meditação e estilo de vida.

Prática tem se popularizado nos últimos anos e vem se tornando uma possibilidade de tratamento de diversas doenças.

Por Douglas Kuspiosz
            Quando se está lá, sentado no tatame, o objetivo é deixar que as preocupações sumam. O cansaço, os problemas do cotidiano, a rotina cada vez mais frenética, tudo isso deve desaparecer. A posição inicial é aquela que todos imaginam quando fala-se em meditar: com as pernas cruzadas ou, com cada pé posto em cima da coxa oposta. Os braços devem ficar sobre os joelhos, com as palmas das mãos para cima e os dedos indicadores e polegares juntos. A partir daí é importante tentar relaxar. É importante concentrar-se na respiração, e, para isso, conta-se quatro segundos para inspirar e oito para expirar. A princípio você nota que está contanto, mas, alguns segundos depois, tudo acontece naturalmente.
            O mantra preenche a sala, de modo que pouco a pouco a sua percepção de que está sentado e que, alguns metros dali, carros passam, muda. Você sente seu corpo expandindo-se e esses detalhes não quase imperturbáveis. A instrutora ema alguns momentos corrige a posição de alguém, ou fala coisas como “é importante manter os olhos fechados para vivenciar”. Faz parte da prática.
            Em seguida, começam as posturas – e são inúmeras. Uma delas é a “postura da criança”, ou “balasana”, onde alonga-se os quadris, coxas e tornozelos. Nela, você deita-se sobre os joelhos dobrados, com as canelas no chão, e seu tronco fica para frente. A cabeça é alongada para frente, podendo tocar o chão, e as mãos ficam além dela. Outra, a postura da “ponte”, ou “dhanurasana” é diferente: com a barriga para baixo, agarra-se as pernas e forma-se um arco.

            Uma prática democracia

            O Yoga é democrático. Crianças, jovens, adultos e idosos: todos podem participar. Vânia Toshiko Kawakami tem 70 anos – faltando alguns dias para completar 71 – e esbanja disposição. Faz Yoga a mais ou menos quatro meses por insistência dos filhos. Ela veio com 11 anos do Japão e seu português é claro. “Eu gosto dessas coisas... eu já fazia exercício localizado há algum tempo, coisa de cinco ou seis anos”.
Ela mistura-se com os mais jovens no tatame e, não hesita em seguir as posturas que a instrutora fala. “Eu tinha medo de começar por causa da minha idade, mas eu comecei devagar e foi bem. Eu sei o meu limite”, lembra. Sempre sorrindo ela mostra os braços quando diz que nunca teve qualquer dor após uma aula. “Desde o começo ela sempre foi muito bem”, retruca a instrutora Maristela Souza, do outro lado da sala. Vânia diz que não havia começado antes porque não tinha uma pessoa de referência, alguém que ela soubesse que praticasse. “Mas agora minha cunhada que veio de São Paulo me disse ‘Ah, mas eu estou praticando também’, e ela tem 86 anos. Então eu acho que não tem idade não”, termina.
E ao lado de Vânia, Bianca Carraro Duda, alguns anos mais jovens – ela tem 22 anos – também já integrou a prática em sua vida. Perguntei o que a havia chamado a atenção no Yoga, e, determinada, respondeu que foi curiosidade. “Eu sabia que existia o Yoga, que era um exercício físico. Mas ele é mais que um exercício, a prática está ligada ao exercício, à respiração, à concentração, à prática corporal. Você vai ao Yoga buscando conhecer alguma coisa, e eu fui para conhece-lo”, conta. Para praticar Yoga é preciso encontrar-se, ter consciência de si mesmo, conhecer os limites de seu corpo e ir além deles. “Todo dia estou conhecendo mais de mim e da prática, não parou na primeira semana”, ressalta.
“A prática está inerente em minha vida, eu venho para o Yoga e ele está integrado em minha vida, faz parte de mim. E a prática não acontece só na aula, mas em todos os lugares, em todos os momentos”, diz Bianca. E isso realmente acontece. A partir do momento em que se percebe o que constitui a prática, nota-se que você pode incluí-lo em diversos momentos do dia-a-dia. “Fora da sala, quando eu consigo fazer algo que antes não conseguia, eu associo isso ao Yoga, essa busca por conhecimento é constante.”
  
Benefícios para o corpo e a alma



A história do Yoga perde-se no tempo, mas sabe-se que surgiu na Índia. Lá existe uma imensidade de escolas, templos e clínicas que ensinam, pesquisam e aplicam o tratamento. Aqui no Brasil a prática chegou na primeira metade do século XX, com a vinda do francês Swami Asuri Kapila (1901 – 1955). Swami pertencia ao Ramana Ashram Internacional de Yoga e apresentou seus ensinamentos em um congresso no Rio de Janeiro para mais de cinco mil pessoas.
Aqui em Guarapuava, quase 80 anos depois do início das atividades no Brasil, Maristela Souza continua levando a prática às pessoas. “O que a gente espera com o Yoga é vivenciar, respirar. A primeira vivência que você tem contato dentro de uma sala de Yoga é entrar em contato com você mesmo.”, explica.
A ida à uma aula pode ser indicada por um médico, um psicólogo. Os benefícios já são conhecidos, mas, quem se dispõe a praticar está atrás de algo que lhe faça bem. “Hoje o Yoga está se tornando essencial para a vida diária. O objetivo é levar os ensinamentos para sua vida, para que você o pratica em casa, no trabalho, no trânsito... eu costumo dizer que você não faz Yoga para ficar calmo, mas para ficar em equilíbrio”.
“Eu acho que o Yoga é um alicerce para todas as coisas que você vem a fazer”, disse Maristela quando perguntei-lhe sobre os benefícios. E eles são muitos, pois, a prática traz alongamento, flexibilidade e principalmente, como já dito, respiração. Algumas doenças que podem ser tratadas são o estresse, reumatismo, doenças nas articulações. “Tem gente que se acidentou e que ao invés de fazer uma fisioterapia prefere o Yoga, porque ele trabalha com o alongamento, com o fortalecimento muscular”, finaliza.
E hoje em dia o estresse está cada vez mais constante em nossas vidas. Trânsito, trabalho, dívidas: são algumas causas desse mal. Nem mesmo os jovens estão livres. Segundo um estudo publicado na Revista de Psiquiatria da USP, a Universidade de São Paulo, 56% dos alunos vestibulandos que foram abordados tinham traços de estresse e ansiedade.
Uma das alunas, Glória Santos, ou “Glorinha”, como todos a chamam, conheceu a prática através do Facebook. Segundo ela, seu interesse pelo Yoga surgiu a partir das experiências que seu pai, que praticou Yoga durante algum tempo, contava. “Eu acabei ficando curiosa e procurei um lugar pra praticar aqui em Guarapuava. Aí eu encontrei o Núcleo de Yoga Ananda”, conta Glória.

Do mesmo modo que Vânia e Bianca, Glorinha viu no Yoga uma forma de melhorar seu condicionamento físico. “No primeiro dia tive alguma dificuldade em relação à elasticidade e força, mas isso me motivou a continuar indo nas aulas e a evoluir”, explica. Mas, acabou vendo no Yoga muito mais que uma atividade física. “Hoje o Yoga significa muito para mim, como se fosse uma válvula de escape para eu poder refletir sobre o mundo, sobre a natureza, meus ator e, por fim, ser uma pessoa melhor”.

Um sonho

Peguei-me certa vez perdido numa rua. Era como se eu soubesse onde estava, ou ao menos desconfiasse. Os prédios eram comuns, as pessoas todas iguais. Tinham, invariavelmente, o mesmo rosto. As mesmas roupas, os sapatos marrons. A capa de chuva – mas não chovia. Via-me só, e perdido, mas, por algum motivo, numa completa familiaridade com aquele lugar todo. Caminhei, então, até o único dos prédios que estava iluminado. As ruas estavam escuras, mas ele brilhava ao fim da principal, como se fosse o único local na cidade inteira onde a vida ainda estava presente.
            Entrei pela porta de vidro e subi alguns degraus. O chão tinha um tapete que estendia-se por todo o piso do hall de entrada, e era cinza-escuro. A iluminação era num tom alaranjado, e me lembrava um filme. Conforme caminhei pelo salão, um dos atendentes veio até mim. Entregou-me um cartão, estava tudo certo. Seu quarto já está pronto, senhor. Ele disse isso. Mas seu rosto não movia-se. Era uma pintura estática, sem detalhes. Um borrão que emitia sons, e alguns poucos pude identificar. Aquilo tudo era demasiadamente familiar. Era como se fosse tudo premeditado e eu soubesse o que viria a seguir. Estava sem celular, e não lembrava de em algum momento na vida ter comprado aquelas roupas que vestia. Eram todas estranhas, mas não importava. Lá fora, debaixo das luzes dos postes, as pessoas desfiguradas caminhavam, e da parte inferior de seus supostos rostos saiam fumaças condensadas, e encolhiam-se em si mesmas, dentro dos casacos e das jaquetas para fugir do frio que as afrontava de forma quase vulgar. Algumas até apressavam o passo, como se quisessem sair logo dali ou, quem sabe, esquentar-se assim. O elevador não funcionava.
            O que era muito estranho. As portas abriram-se e ele não estava lá. Havia um fosso artificial. De metal. Com fios, concreto, num cinza absoluto. Como se tentasse me impedir de subir, como se quisesse que eu caísse. Era o térreo, mas o buraco era muito, muito fundo. Não podia ver seu fim, e a vontade de pular, naquele momento, era quase incontrolável. Mas, como se alguém me desse um soco, voltei à realidade. Por alguns segundos peguei-me com uma imagem na cabeça, com uma lembrança que desestabilizara-me. Era o passado. O fosso chamava-me, e se não fosse uma brisa fria que senti quando alguém abriu as portas de vidro eu provavelmente teria me jogado. Ninguém poderia evitar. Era aterrador.
            As escadas alongavam-se infinitas em minha frente. E nelas, conforme subia, a cada passo, a cada degrau superado, meu peito apertava, como se houvesse algo que pudesse, de algum modo, atacar-me. Era uma ansiedade que já sentira em outros momentos, mas não conseguia lembrar de nenhum. Era como se tudo que outrora fora vivido desaparecesse, e minha vida começasse naquele dia, naquele fim de tarde, naquele lusco-fusco frio, feio e vulgar; e desconhecido que me via em meio. Não sei por quanto tempo subi, mas em cada parede via aquele fosso e poucas vezes não pensei em atirar-me nele. Era como se uma lembrança puxasse-me para ele, como se a visse e sua voz chamasse-me. E ela era calorosa, havia harmonia, beleza, havia um sentimento que contrastava com todo o universo melancólico daquele dia.
            A porta era gigante. Sentia-se acuado frente à ela. Gigante, sem fim acima de mim, ridiculariza-me. Fazia-me ínfimo, pobre, sem qualquer poder, e abri-la foi um esforço indescritível. Senti o peso da vida nela, e, enquanto a forçava para frente, ignorei qualquer chance que tinha de morrer. Sempre soube que seria inevitável, invariavelmente inesperada e, quem sabe, encantadora. Poderia ser, de algum modo, uma calmaria o que a sucederia. Ignorei tudo isso, e, naquele pequeno momento presente, como se o passado desconhecido fosse e o futuro uma incerteza desnecessária e desinteressante, abri-a. E, sentada, com um vestido que vi há muitos anos, olhava-me. Seus cabelos eram um pouco enrolados, compridos, e espalhavam-se sobre seus ombros, caiam sobre seus seios, e seu rosto parecia furtivo. Estava distante. Longe. O quarto tinha uma cama, apenas, e as paredes eram escuras. A luz estava nela, e a janela aberta fazia as cortinas balançarem. Não sei qual era o andar, mas, tal qual antes, havia uma motivação para pular. Eu a conhecia. Sabia disso. De alguma forma, de algum modo a conhecia. Ela tinha um rosto, e ele sorria para mim. Um sorriso largo, que a fazia fechar os olhos. Eu a conhecia. Ela me conhecia. Beijou-me no rosto e senti seu corpo junto ao meu num abraço. Era quente, ao contrário da brisa que vinha pela janela. Estava calma, como se tudo aquilo fosse programado.
            A porta abre. E ela há uma pessoa que me chama. A garota sorri e pede que eu vá, e sem opção, aceito. Saio pela porta, e o corredor agora torna-se um espaço sem dimensões. As paredes não existem, nem o teto. Há, apenas, um espaço vazio pelo qual caminhamos. E uma porta, muito longe. Sentia como se fosse um pedaço de mim que caminhava junto dele. O restante estava no quarto, junto dela, em seus braços, em seus cabelos, em seus lábios. Quem caminhava era uma parte arrancada a força de mim. Tinha uma porta, e ela era comum, de tamanho normal. Entramos e outras pessoas estavam sentadas, todas com o mesmo rosto debaixo da luz fraca da lâmpada. Era um cômodo só, estreito, com várias cadeiras e várias pessoas iguais. E todas eram iguais a mim. A mesma feição, os mesmos detalhes. Quem trouxera-me aqui fora eu mesmo. Preso, agora, tentava voltar. Não havia porta, apenas uma janela que ocupava toda a parede, e joguei-me.
            Não sei por quanto tempo cai, mas pareceu-me infinito. E enquanto despencava, tinha sua imagem em mente, e a reconheci.
            Ela está ao meu lado. Caminhamos juntos. Tudo é muito cinza, e em alguns cantos há poças d’água. Ela fala e eu apenas ouço, como se minha existência ali fosse acessória, ou como se eu simplesmente não existisse. Ela caminhava e falava e eu podia sentia sua mão junto da minha.

            Então, pego-me novamente só em frente à porta de onde a encontrei. Porém, ao contrário de outrora, trancada, e minhas chaves não funcionavam ali. Não ouvia nada vindo de dentro. Ela havia sumido, e eu estava preso com suas lembranças. O fosso do elevador me chama novamente.

Douglas Kuspiosz 

14.11.16

Baixei por bobeira, acabei viciando

Provavelmente você já ouviu falar do Tinder, um dos mais famosos apps de relacionamento. Mas além dele existem também o Grindr, Hornet, Scruff e outros, todos têm algo em comum: facilitar a paquera entre as pessoas do mundo todo.
Confesso que nunca imaginei que fosse tão fácil de encontrar alguém afim de um sexo casual. Da mesma forma que tem gente atrás de sexo, também tem muita gente procurando relacionamento sério. Nesses aplicativos muitas pessoas “saíram da caverna”. A timidez quase sumiu, quem não falava agora fala, quem não seduzia agora seduz.
Eu uso e já usei todos eles, confesso que no começo me assustei. Comecei com o Tinder, que tem muitos usuários, ele usa a localização GPS, passando para esquerda quer dizer que você não quer aquela pessoa, já para a direita você curtiu ela. Além disso é fácil de fazer o cadastro já que o app usa suas informações do Facebook.
Assim como no Tinder, no Grindr e no Hornet você precisa fazer um cadastro para poder usa-los. Você pode encontrar perfis com descrições diversificadas, tais como “mande foto de rosto, gosto de conhecer e saber o que pode acontecer...”, “sigilo é fundamental, buscando algo bacana, bom papo e discreto”, “até 25 anos de preferência, #ativo”.
Se você não usa esses aplicativos, eu vou explicar um pouco.... As fotos do perfil de cada um podem ou não ser verdadeira (são poucos os perfis fakes, e isso a gente descobre só observando a foto e conversando com o dono deles). Existem as fotos públicas, que são aquelas que todos podem ver, e existe também os álbuns privados em que um usuário pede autorização ao outro para ver tais fotos (que em alguns casos são nudes) e como esses aplicativos permitem um certo anonimato as informações que as pessoas colocam em seus perfis
Às vezes, a gente não tem sorte mesmo, de repente você achou a pessoa daquele perfil com a foto perfeita, depois de uma breve conversa um encontro é marcado, chegando lá a surpresa: não era quem você esperava. Pois é, isso já me aconteceu, e não foram poucas vezes. Foi um arrependimento tão grande que me fez repensar na forma de paquerar.
Mas o que eles têm de bom, também tem de ruim. Se por um lado ficou mais fácil procurar o par perfeito sem sair de casa, também ficou mais fácil contrair uma DST (doença sexualmente transmissível). Infelizmente, não é possível saber quem tem HIV, por exemplo. Dos apps que eu uso, o Scruff é o que mais se preocupou com isso, ele pede que cada pessoa coloque em seu perfil se é portador do vírus ou não (se é que podemos dizer que isso impede que as pessoas mintam).

Faço aqui mais uma e a última confissão: eu achei que iria baixar, usar e em pouco tempo iria desinstalar cada app, não foi isso que aconteceu. Aquela ansiedade de encontrar logo alguém que você gostou ou poder saciar seu fogo conseguindo alguém para ter um encontro casual acabou me viciando. Mas apesar de tudo eu ainda continuo usando a maioria esses aplicativos, eles acabam se tornando um vício.
Texto - Gustavo Dusi

Foi só uma brincadeirinha

Está circulando um vídeo nas redes sociais em que o pai e suas duas filhas resolvem fazer uma brincadeira com a mãe: contar para ela que uma das suas filhas gosta de mulheres. Só que o resultado não foi o esperado, a mãe ficou louca e começou a falar palavrões além de ameaçar não só verbal, mas também fisicamente as filhas, chegando ao ponto de pegar uma faca para ataca-las.
Você pode estar se perguntando o motivo pelo qual eu estou falando disso ou caso tenha assistido o vídeo pode ter achado engraçado (o que não é). Bem vamos aos fatos...
Se você pesquisar você vai encontrar vários vídeos como este, porém com a diferença de que os fatos são reais e as reações são: ameaças físicas, ser expulso de casa e até uma coisa ridícula que algumas pessoas dizem: que gostar de pessoas do mesmo sexo é uma doença (what?????).
Será que esse pai e as filhas não pararam para pensar que eles estavam fazendo piada, estavam brincando com a realidade de muitos ainda? Talvez alguém que esteja passando pela situação de contar para os pais, ainda terá coragem de contar depois de ver esse vídeo e ter medo das possíveis reações?
É preciso deixar bem claro que o vídeo não é nenhum pouco engraçado, talvez você que está lendo esse texto nunca passou ou nem vai passar por essa situação, mas também é preciso deixar claro que pessoas morrem, pessoas são expulsas de casa, etc por gostarem de pessoas do mesmo sexo.
“Isso já passa, eu preferia que você fosse hetero, você não foi criado pra isso, a gente vai procurar um médico, onde foi que eu errei? O que eu fiz pra isso acontecer? ”, é esse tipo de frase que pessoas LGBT escutam todos os dias não só fora mas também dentro de casa, e ainda tem gente que não percebe que está sendo ridículo fazendo certos vídeos por ai.
Claro que eu não fui o único que tive essa reação, o link do vídeo está disponível aqui, então é só você entrar e ver os comentários lá, só quem vive isso todos os dias sabe como é difícil viver assim, entenda por “assim”, viver fingindo ser uma coisa que não é, viver com medo de contar a verdade.
Os pensamentos que eu já citei aqui no texto precisam ser mudados, não é bonito dizer que “ah, isso é coisa de gay ou você só não gosta de homem ou de mulher porque nunca beijos uma/uma”, isso é ridículo, isso precisa ser mudado e não é com vídeos como esse que que os pensamentos vão mudar. Muito pelo contrário, assim o ego daquelas pessoas conservadoras só vai aumentar e elas vão continuar achando que são donas da verdade e que estão sempre certas.
Enfim, vamos pesquisar, vamos ler sobre determinado assunto, vamos ler notícias antes de fazer vídeos ou quaisquer outras publicações na internet, vamos abrir a mente.
Texto - Gustavo Dusi

11.11.16

Prometa que esse fim de ano é o fim

Foto: Pinterest

  Todos os finais de ano são iguais, corremos como loucos em direção ao novo ano que deve ser iniciado com festa e união, porque a esperança de que com o novo ano, virão juntas coisas novas e principalmente coisas boas. Gosto de pensar que a vida é como a capa de “Houses of Holy” do Led Zeppelin, todos somos eternas crianças que nascemos sem a informação, mas com a capacidade de absorve-la, conhecemos o mundo através do contato e o que nos faz diferentes é como você reage a cada novo contato. A cada ano estamos em contato com uma situação diferente e reagimos conforme o nível de maturidade que atingimos. Isso é que o nos faz pensar que se pudéssemos voltar no tempo faríamos tudo diferente e melhor, sem darmos conta que a maneira que agimos antes é o que nos leva ao lugar que estamos.
  As pessoas geralmente precisam de um motivo para se impulsionar e após o impulso precisam de outro motivo que serve para amortecer o impacto que são as conseqüências daquilo que fazemos, esperamos muito dos nossos motivos e esquecemos que somos nós que precisamos fazer por nós aquilo que queremos. O ano começa, e quanto tempo você leva para deixar de chamá-lo de novo ano? Depois de alguns dias esse ano já estará velho, e provavelmente muita gente irá estacionar seus planos até que encontre um novo motivo para levá-los a serio, um dia essas pessoas estarão sentadas sobre um monte de promessas não cumpridas e decepcionados porque algo não deu certo, como se o “dar certo” dependesse mais do resto do mundo do que de nós que muitas vezes fazemos o básico e não o nosso melhor por nós mesmos.

 
Precisamos ser grandes sem perder nosso espírito de crianças, sem perder a curiosidade para conhecer algo novo, mas não podemos deixar de sermos responsáveis por nós e ser responsável por si é mais que apenas pagar por seus erros é também se sentir dono de seus acertos, sem dizer que aquilo veio porque era o destino ou coisa parecida, você constrói aquilo que quer, e a consequência disso é que terá que viver com aquilo que construiu. Não espere o ano novo para começar seus novos planos, não espere a segunda-feira para começar sua dieta e se algo te incomoda não resolva amanhã, ao nascer somos donos apenas do hoje, então, o que você vai fazer no seu hoje?

Angelo Crystovam

De Rambo a Reagan

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  Os Estudos Culturais são um campo amplo e flexível que se encontra em constante construção. Exaltando o popular e criticando a desigualdade e a dominação social, os Estudos Culturais se concentram em temas como as teorias feministas, a multicultura, as etnias, a classe e o sexo. Analisa também como tudo isso se insere e se comporta na mídia.
  Ler politicamente a cultura da mídia significa entender o seu contexto, seu discurso, seus códigos e suas imagens, absorvendo posições políticas e ideológicas.
  Durante a década de 1980, sob o comando do presidente Ronald Reagan, os Estados Unidos estava caminhando junto ao conservadorismo que predominava nas áreas políticas, sociais, econômicas e culturais. Com o fim da década de 1970 e a retirada das tropas americanas do Vietnã, o país passava por um período de descrença e insegurança quanto à situação em que viviam. Os gastos militares com a Guerra do Vietnã haviam desvalorizado o dólar e a crise atingia os setores políticos, sociais e econômicos. Nesse contexto, com a chegada de Reagan e a “Nova Direita” a Casa Branca em 1981, os Estados Unidos começa a viver um período de conservadorismo e empreendimento armamentista. Porém a postura conservadora não se limitava aos setores políticos e econômicos, a hegemonia direitista também estava inserida no campo cultural dos Estados Unidos.
  A cultura da mídia abre um leque de grupos sociais em competição, cada qual lutando pelos seus posicionamentos políticos, sociais e econômicos. Ideologias são projetadas na mídia, em jornais, revistas, rádios, televisão e no cinema.
  Douglas Kellner (2001) afirma que a cultura da mídia ajuda a estabelecer a hegemonia de determinados grupos e projetos políticos. Assim, representam suas ideologias a fim de tentar induzir os indivíduos a simpatizarem com certas posições políticas. O cinema, tanto quanto os outros meios de comunicação, emerge como um canal de expressão de tais discursos.
  Debruçando-se sobre esse contexto, o autor apresenta obras cinematográficas como Rambo (1982) e Top Gun (1986) como representações do governo Reagan e sua guinada direitista sobre os Estados Unidos. Explorando ideologias masculinizadas e patrióticas, ambos os filmes são exemplos de como Reagan estava em busca do reestabelecimento do poder branco masculino após a derrota na Guerra do Vietnã e a crise que assolava o país. Rambo surge como a representação do herói que emerge em um cenário de adversidade, semelhante ao que Reagan queria fazer com o próprio país.
  Douglas Kellner aponta a trilogia Rambo como uma das maiores expressões ideológicas da era Reagan, o personagem é a representação dos ideais da direita estadunidense.
  O autor ressalta que as pessoas devem saber discernir as mensagens, valores e ideologias que são representados pela cultura da mídia em suas mais variadas extensões.
Alegando que a ideologia faz parte de um sistema de dominação que suprime os grupos reprimidos e reforça estereótipos, o autor cita exemplos como a figura projetada da mulher na mídia, como passiva, doméstica e submissa ao marido.
  Douglas Kellner propõe então uma análise sobre o modo como a cultura da mídia transcodifica as posições dentro dos conflitos políticos, oferecendo modelos através de imagens, espetáculos, discursos, narrativas e outras formas culturais. O autor explana então a questão da eficácia da cultura da mídia na composição das sociedades contemporâneas alegando que não existe apenas uma ideologia dominante, mas sim várias.
  A trilogia Rambo apresenta um conjunto de ideias que ganha espaço na sociedade estadunidense na década de 1980, seguindo uma tendência no cinema que teve seu auge desde fins da década de 1970, os filmes tratam de questões que estão intimamente associadas ao contexto conservador da época. Rambo assume papel de porta-voz no discurso conservador no cinema.
  É importante ressaltar a correlação entre a obra cinematográfica e o tempo de Reagan na Casa Branca, entre a ideologia conservadora da “Nova Direita” e suas representações no cinema culminando no impacto sobre a sociedade.
  Durante a trilogia são expostas questões como o militarismo, a masculinização, o retorno ao Vietnã, o individualismo e o desprezo em relação ao “inimigo”, representados como o estrangeiro, em especial vietnamitas, árabes e soviéticos. Isto é, os filmes explanam argumentos presentes no debate político, cultural e social durante o período Reagan, que tem relação com a narrativa, os discursos, e a representação da trilogia Rambo.
  John Rambo é um soldado americano que lutou e foi mantido prisioneiro durante a Guerra do Vietnã. Após conseguir escapar ele retorna a seu país em busca dos seus antigos amigos de combate, que por infortúnio estão todos mortos.
  Rambo é uma figura heroica, porém encarado como um protagonista marginal, incompreendido pela sociedade. É o contrário do até então galã do cinema clássico. Ele busca apenas paz, mas ao cruzar com o xerife da cidade Will Teasle, que o confunde com um mero criminoso, ele é escoltado para fora da cidade. Como Rambo faz o retorno para voltar a cidade, ele é preso injustamente e levado à delegacia local onde se inicia toda a odisseia vivida pelo protagonista. Certas ações dos policiais desencadeiam em Rambo, flashs de memórias da prisão no Vietnã, em que ele aparece sendo torturado pelos oficiais vietnamitas. Isso o leva a atacar todos os policiais presentes na delegacia, prosseguindo em fuga após furtar uma motocicleta. Ele segue a estrada em direção à montanha sendo perseguido pelo xerife, que transforma essa busca em uma missão pessoal de captura.
  Refugiado na montanha, Rambo demonstra todas as suas habilidades de uma máquina de guerra. Ele faz armas e armadilhas com tudo o que está a sua disposição, tanto que em uma primeira investida ele consegue ferir todos os policiais envolvidos, ele se camufla e se movimenta na floresta de modo que nenhum dos oficiais consegue alcança-lo. Quando ele tem a chance de matar o xerife, durante a primeira investida, ele o deixa vivo e diz “-Eu só quero ficar em paz”. Isso parece alimentar o ódio do oficial que mobiliza o seu distrito e a policia estadual para encontrar Rambo. Esse é o estopim para a guerra que vem a seguir, um único homem consegue acabar com inúmeros policiais, destaque para uma frase dita pelo Coronel Trautman (recrutador, treinador e comandante de Rambo no Vietnã) quando o mesmo chega ao acampamento da polícia tentando reaver o protagonista. “-Eu não vim aqui para salvar o Rambo de vocês, vim para salvar vocês do Rambo”. Ele descreve seu pupilo como uma exímia máquina de guerra, capaz de se adaptar as mais horríveis situações e sobreviver, Rambo é um sobrevivente e é isso que presenciamos durante todo o filme.
  Rambo foi uma franquia que marcou os anos 1980 e apresentou um protagonista que veio a se tornar um ícone mundial.
  A trilogia entra em harmonia com as políticas e o ideal do conservadorismo do governo Reagan, pois na medida em que cultua através das imagens a utilização de armamentos tecnológicos, reforçando a corrida armamentista e os gastos militares, ela legitima essas políticas frente à sociedade.
  Se Rambo foi a personificação da Era Reagan, Sergei Eisenstein era a representação dos novos ideias russos após a revolução de 1917. Seus filmes tinham o objetivo de difundir uma cultura de origem proletária, que viesse dos próprios operários, concebendo, desse modo, uma superestrutura que fortalecesse a ideologia soviética da época.
  Sua obra, Outubro (1927), foi encomendada pelo Estado Soviético a fim de criar um registro do passado, em torno de questões extraídas dos fatos que ocorreram em 1917. Neste filme Eisenstein expõe através do socialismo e do marxismo o ideal de coletividade que se propagava na época.
  O cinema está recheado de representações ideológicas. Leni Riefenstahl era a escolha do Partido Nacional Socialista Alemão para produzir filmes que enaltecessem as crenças do III Reich.
Para cada período e contexto a cultura da mídia oferece vastas representações e modelos ideológicos, oferecendo novos pontos de vista, teorias e pressupostos, que alimentam o senso comum legitimando valores e pensamentos.
  Douglas Kellner explana a questão de como a cultura da mídia trabalha a ideologia que é disseminada através de produtos midiáticos, incitando o público a assumir um posicionamento crítico a partir do que é recebido pela mídia.

  Rambo é um dos exemplos vigentes na cultura da mídia durante o governo Reagan, apontando produtos que serviram aos interesses partidários do país na época, como o enaltecimento do orgulho americano pós Vietnã, a corrida armamentista e o alistamento nas forças militares.

Angelo Crystovam

7.11.16

Esqueça tudo o que você sabe





Cartaz do filme




Essa é uma das frases ditas por A Anciã em seu primeiro diálogo com o Doutor Stephen Strange, um médico bem-sucedido que só pensa em si mesmo. Quando ele sofre um acidente de carro e tem suas mãos debilitadas, sua carreira de neurocirurgião termina, mas sem aceitar o ocorrido o Doutor busca a cura em um local chamado Kamar-Taj, que inicia pessoas em magia.
Isso mesmo, agora a Marvel tem um “bruxão” nas telonas, mas acredito que os fãs de Doutor Estranho não vão gostar dessa nomenclatura que usei para o herói deles. Antes de mais nada, Strange é um Doutor e não um bruxo. O universo do filme é mais místico do que mágico, entende? O herói lida com um poder místico.
O Doutor Estranho faz parte da fase três da Marvel Studios, que começou com Capitão América: Guerra Civil. Sua introdução aumenta ainda mais o universo cinematográfico da Marvel do que já foi expandido com Guardiões da Galáxia, sendo a continuação deste último o próximo filme da terceira fase: Guardiões da Galáxia Vol. 2.
A Marvel caprichou mais uma vez com efeitos visuais de ponta em um filme 3D que “abre a sua mente”. No entanto, achei que faltou um aviso para pessoas com labirintite por conta das imagens psicodélicas meio Matrix e A origem. Eu não tenho labirintite, mas confesso que na cena da primeira luta na realidade espelhada meu cérebro demorou um pouquinho para ajustar o que eu estava vendo. Tudo superado, a realidade espelhada é linda de se ver. Os magos abrem essa realidade para lutar sem interferir o ambiente físico.

Moral da história

Eu sempre busco enxergar os ensinamentos e as lições de vida que estão na história dos filmes, tanto que defendo mesmo aqueles considerados da indústria cultural/cultura de massa porque deixando o lucro de lado é possível identificar uma moral da história também nesses filmes. E quer exemplo melhor do que a moral dos heróis? Particularmente, o filme Doutor Estranho nos faz refletir em todas as vezes em que somos egoístas, que pensamos em nós mesmos e ignoramos a sociedade e as ações para um bem maior do que o nosso próprio bem. Com o filme também podemos pensar no que realmente sabemos e damos como verdade absoluta, muitas vezes ignorando novas interpretações e outros pontos de vista. É importante que sejamos humildes em aprender e interpretar princípios contrários aos nossos.
Outro ponto que podemos retirar do filme e que vem aparecendo em histórias de outros títulos não só nos cinemas como em séries e livros também, é que o verdadeiro vilão é o tempo. A citar exemplos, o Tempo é um personagem importante em Alice Através do Espelho e também a base da série 12 monkeys. O Doutor Estranho consegue manipular o tempo no filme, mas o que sempre aparece também nessas histórias é que o tempo dá e tira, que o fim é essência para nos fazer viver e que a eternidade tem suas consequências.

Spoilers

Sobre boatos de uma possível aparição da entidade cósmica Tribunal Vivo no filme, ela não aparece, apenas o Cajado do Tribunal Vivo é mostrado mesmo.
O filme não faz nenhuma ligação direta e explícita com outros filmes da Marvel, apenas na cena pós-créditos que aparece o Doutor Estranho conversando com o Thor e dizendo que irá ajudá-lo a encontrar o pai dele.
Em outra cena pós-crédito (aquela última mesmo), vemos uma brecha para a sequência confirmada do filme, mostrando o colega Mordo de Kamar-Taj como vilão.

Texto por Marcelo Junior.

 
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