22.6.17


                  William Butler Yeats

   Ontem foi aniversário de nosso grande poeta e escritor, Machado de Assis, 178 anos desde que veio ao mundo. Mas hoje vamos falar de um outro poeta, também nascido em junho, posto que de Machado de Assis muitos devem saber em nosso meio e no país, ao contrário desse outro. Estamos falando do poeta irlandês William Butler Yeats (1865-1939). Ele nasceu em meio a uma minoria protestante anglo-irlandesa que havia controlado a católica Irlanda social, econômica e polititcamente desde o século XVII, pelo menos. Também viveu 14 anos de sua juventude em Londres. Todavia, ele manteve suas raízes culturais irlandesas, afirmando sua identidade não como inglesa, mas irlandesa, inclusive no campo literário, onde trabalhou com as lendas e heróis nacionais.
   Yeats é um dos grandes nomes da poesia de língua inglesa dos tempos modernos, bem como da Irlanda. Foi também um intelectual engajado na causa nacional, quando os irladeses ainda estão sob domínio da Coroa britânica. Abaixo temos dois poemas seus, traduzidos e no original.


Versos escritos em desalento 

Quando é que eu vi pela última vez 
Os olhos verdes redondos e os corpos longos vacilantes 
Dos leopardos escuros da lua? 
Todas as bruxas selvagens, aquelas senhoras muito nobres, 
Por todas as suas vassouras e as suas lágrimas, 
Suas lágrimas de raiva, fugiram. 
Os santos centauros das colinas desapareceram; 
Não tenho nada para além do amargado sol; 
Banida mãe lua heróica e desaparecida, 
E agora que cheguei aos cinquenta anos 
Tenho que aguentar o tímido sol. 

( tradução: António de Campos )



Lines written in Dejection

WHEN have I last looked on 
The round green eyes and the long wavering bodies 
Of the dark leopards of the moon? 
All the wild witches, those most noble ladies, 
For all their broom-sticks and their tears,         
Their angry tears, are gone. 
The holy centaurs of the hills are banished; 
I have nothing but the harsh sun; 
Heroic mother moon has vanished, 
And now that I have come to fifty years
I must endure the timid sun.

Com o tempo a sabedoria

Embora muitas sejam as folhas, a raiz é só uma; 
Ao longo dos enganadores dias da mocidade, 
Oscilaram ao sol minhas folhas, minhas flores; 
Agora posso murchar no coração da verdade.

(tradução: José Agostinho Baptista)



The Coming of Wisdom with Time

THOUGH leaves are many, the root is one; 
Through all the lying days of my youth 
I swayed my leaves and flowers in the sun; 
Now I may wither into the truth.

14.6.17

Carolina Maria de Jesus


           Desconhecida para muita gente porém muito importante para nossa literatura,nascida em Minas Gerais, mais precisamente em Sacramento,  Carolina Maria de Jesus catadora de lixo, escrevia sobre seu cotidiano e pensamentos em cadernos encontrados no lixo, esses que viraram um diário onde Carolina descrevia seus pensamentos, sobre seu cotidiano, a desigualdade, e as coisas que compõe a condição humana. Os erros gramaticais, livres de edição, talvez para mostrar o valor de seu conteúdo mesmo fora da norma culta, nos trazem uma literatura única.
          Quarto de despejo foi seu maior sucesso, porém é um material difícil de ser encontrado em livrarias, mesmo Carolina sendo uma das escritoras brasileiras mais expressivas, sendo traduzida para mais de dez idiomas.
          Em todo o material escrito por Maria (seis romances, cerca de 67 crônicas e mais de cem poemas, além é claro de "Quarto de despejo") vemos claramente sua opinião do mundo, desigual, discriminando isolando e ignorando a existência de minorias, a escritora então pode fazer com que seja ouvida  a voz de quem ninguém ouvia, fazer com que vissem aqueles que eram invisíveis para a sociedade.
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"Preparei a refeição matinal. Cada filho prefere uma coisa. A Vera, mingau de farinha de trigo torrada. O João José, café puro. O José Carlos, leite branco. E eu, mingau de aveia.
Já que não posso dar aos meus filhos uma casa decente para residir, procuro lhe dar uma refeição condigna.
Terminaram a refeição. Lavei os utensílios. Depois fui lavar roupas. Eu não tenho homem em casa. É só eu e meus filhos. Mas eu não pretendo relaxar. O meu sonho era andar bem limpinha, usar roupas de alto preço, residir numa casa confortável, mas não é possível. Eu não estou descontente com a profissão que exerço. Já habituei-me andar suja. Já faz oito anos que cato papel. O desgosto que tenho é residir em favela."
(Trecho de Quarto de Despejo, 1960)
A filha de Carolina, Vera Eunice, hoje professora, contou, em entrevista, que sua mãe aspirava a se tornar cantora e atriz.
Aos quase 63 anos, em 13 de fevereiro de 1977, Carolina faleceu, vitima de insuficiência respiratória.

6.6.17


          William Shakespeare escreveu sonetos durante o apogeu do gênero, pois em 1598 Francis Meres, em seu Palladis Tamia: Wit´s Treasury elogiou Shakespeare e seus: “sonetos açucarados entre seus amigos particulares.” Mesmo se eles não estivessem impressos até o momento, nós sabemos que eles circulavam em manuscritos entre os conhecedores e mereciam respeito. Shakespeare pode de fato ter preferido postergar a publicação de seus sonetos, não por alguma indiferença dos seus valores literários, mas por um desejo de não parecer muito profissional. Os que “faziam a corte” da Renascença Inglesa, aqueles cavalheiros que as realizações supostamente incluíam a versificação, olhavam para a escrita de poesia com uma evocação designada para entreter um companheiro ou para cortejar uma dama. A publicação não era muito polida, e muito desses autores apresentavam consternação quando seus versos eram pirateados na impressão.
Abaixo, o Soneto de n° 88 de William Shakespeare, publicado em 1609.
SONETO LXXXVIII

Quando me tratas mau e, desprezado, 
Sinto que o meu valor vês com desdém, 
Lutando contra mim, fico a teu lado 
E, inda perjuro, provo que és um bem. 
Conhecendo melhor meus próprios erros, 
A te apoiar te ponho a par da história 
De ocultas faltas, onde estou enfermo; 
Então, ao me perder, tens toda a glória. 
Mas lucro também tiro desse ofício: 
Curvando sobre ti amor tamanho, 
Mal que me faço me traz benefício, 
Pois o que ganhas duas vezes ganho. 
Assim é o meu amor e a ti o reporto: 
Por ti todas as culpas eu suporto.

William Shakespeare


2.6.17

Sejamos Todos Feministas por Chimamanda Ngozi Adichie

“Sejamos Todos Feministas”
Por Chimammanda Adichie

Em seu discurso “Sejamos todos feministas”, lançado em e-book pela Companhia das Letras, a escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie relata suas experiências sobre a questão do feminismo. A escritora relata que foi definida como “feminista” pela primeira vez em uma discussão com um amigo quando tinha apenas 14 anos, e que não foi um elogio. No momento ela desconhecia o conceito do termo feminista, mas logo que chegou em sua casa foi buscar o significado no dicionário.
Não adiantou terem colado tantos pesos negativos para afastar Chimamanda do feminismo. Ela está mais preocupada em desconstruir essa sociedade que ensina que homens são superiores as mulheres. 



Com o passar dos anos e com a publicação de seus romances, Chimammanda foi considerada pelos críticos como uma autora feminista. A autora coloca em debate, através de seus romances, a questão da desigualdade de gênero. Ela defende que a sociedade deve repensar os ideais de gênero, e que o feminismo é o caminho para entrarmos nessa discussão. Portanto, sejamos todos feministas, em busca de uma sociedade sem desigualdade.   

23.5.17

Trem de Ferro, de Manuel Bandeira

O poeta Manuel Bandeira (1881-1968) nasceu na cidade do Recife, Pernambuco, no dia 19 de abril de 1886. Publicou seu primeiro livro "A Cinza das Horas", de nítida influencia Parnasiana e Simbolista, no ano de 1917.  Em 1938, é nomeado professor de Literatura do Colégio Pedro II. Em 1940 foi eleito para Academia Brasileira de Letras, ocupando a cadeira de nº24. Manuel Carneiro de Souza Bandeira Filho faleceu no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro de 1968.
O poema "Trem de Ferro" foi escrito por Bandeira na década de 1930. O poema é muito conhecido, principalmente, pelas crianças, no entanto, parece que não foi escrito apenas para criança, apesar da linguagem de fácil compreensão, ele nos instiga a buscar a criança que mora dentro de nós, conduzindo-nos a uma viagem de trem. A linguagem coloquial é muito marcante no poema, tomemos como exemplo as palavras: "prendero", "canaviá", "matá", "mimbora". O uso desse tipo de linguagem valoriza a cultura nacional
Os versos fazem-nos acompanhar o andar do três, por exemplo: "Café com pão/ Café com pão/ Café com pão Virgem Maria que foi isto maquinista?". Ao lermos esse poema, temos uma imagem acústica que cria o som de um trem. O trem naquela época era muito utilizado, era o principal meio de transporte da agricultura, essencial para nossa economia. Além disso, temos aqui versos tetrassílabos, e pressupõem uma velocidade linear, e correspondente ao início de uma viagem. Nos versos seguintes, temos as palavras "muita força", que se repetem em três versos, e possuem três sílabas poéticas - Mui (1ª) / ta (2ª) / For (3ª) ça (não conta, pois é pós-tônica), o que dá a entender que o trem começa a andar mais rápido.
Neste poema, percebemos a influência do Modernismo, pois há o rompimento com as normas poéticas, versos livres e com menos rimas. Há uma buscar pela cultura popular, principalmente a nordestina. Aqui podemos citar uma cantiga antiga folclórica nordestina, denominada "Trem de Ferro": “O trem de ferro quando sai de Pernambuco vai fazendo vuco-vuco até chegar no Ceará Rebola pai, rebola mãe, rebola filha eu também sou da família também quero rebolá".
Por fim, notamos a melancolia do eu-lírico ao mencionar a saudades de sua terra e versos trissílabos continuam dando a ideia de velocidade e continuidade para a viagem, já que o poema termina com reticências.

Referências

BANDEIRA, Manuel. Bandeira de bolso: uma antologia poética. Organização e apresentação de Mara Jardim. Porto Alegre: L&PM, 2015



https://www.ebiografia.com/manuel_bandeira/

16.5.17

RONALD DE CARVALHO


Ronald de Carvalho nasceu 16 de maio de 1893 no Rio de janeiro e faleceu dia 15 de fevereiro de 1935. Poeta, ensaísta e memorialista. Filho do engenheiro naval Artur Augusto de Carvalho, integrante da Revolta da Armada, 1893 a 1894, que é fuzilado pelas forças legalistas do governo Floriano Peixoto. Criado e instruído pelo avô até 1899, conclui os estudos primários e secundários aos 14 anos. Nesse período, ingressa na Faculdade Livre de Ciências Jurídicas e Sociais, e inicia a carreira de jornalista, colaborando com a revista A Época e o Diário de Notícias.
Publicou seu primeiro, Luz gloriosa (1913) que revela influencia de Verlaine e Baudelaire, e ingressou na carreira diplomática (1914), estabelecendo-se em Lisboa, Portugal. Continuou conciliando a atividade literária com a diplomacia, publicou mais poemas, de forte cunho simbolista.

Interior


Poeta dos trópicos, tua sala de jantar
é simples e modesta como um tranqüilo pomar;

 
no aquário transparente, cheio de água limosa,
nadam peixes vermelhos, dourados e cor de rosa;

 
entra pelas verdes venezianas uma poeira luminosa,
uma poeira de sol, trêmula e silenciosa,

 
uma poeira de luz que aumenta a solidão.

 
Abre a tua janela de par em par. Lá fora, sob o céu de verão,
Todas as árvores estão cantando! Cada folha
é um pássaro, cada folha é uma cigarra, cada folha é um som...
O ar das chácaras cheira a capim melado,
a ervas pisadas, a baunilha, a mato quente e abafado.

 
Poeta dos trópicos,
dá-me no teu copo de vidro colorido um gole d’água.
(Como é linda a paisagem no cristal de um copo d’água!)


Publicado no livro Epigramas Irônicos e Sentimentais (1922).
In: CARVALHO, Ronald de. Poesia e prosa. Org. Peregrino Júnior. 2.ed. Rio de Janeiro: Agir, 1977. (Nossos clássicos, 45). p.34.
 
 

11.5.17

Talentos do Paraná



Buscando enaltecer os talentos paranaenses, falemos um pouco sobre o escritor Domingos Pellegrini Junior.


       Domingos nasceu no dia 23 de julho de 1949, na cidade de Londrina onde vive até hoje. Escritor paranaense, formado em letras lançou seu primeiro livro em 1977, uma coletânea de contos chamada “O homem vermelho”, que foi a obra que fez com que Domingos ganhasse, no mesmo ano, um dos mais importantes prêmios literários do país (Prêmio Jabuti), o autor voltaria a ganhar o mesmo premio em 2001 com o romance “O caso da chácara chão”. Além da literatura, Domingos escreve para jornais, revistas e atua na publicidade. Uma das obras de grande destaque chama-se “Terra vermelha’, onde o autor conta a história da colonização do estado do Paraná.
         Atualmente, ele vive em uma chácara (chácara chão) em sua cidade natal e é colunista em um jornal local. Domingos é considerado um autor pós-moderno e seus escritos são voltados para contos, poesias, romances e romances juvenis.


Mudanças
Por: Domingos Pellegrini Jr.
O tempo pôs a mão na tua cabeça e ensinou três coisas.
Primeiro:
Você pode crer em mudanças quando duvida de tudo, quando procura a luz dentro das pilhas, o caroço nas pedras, a causa das coisas, seu sangue bruto.
Segundo:
Você não pode mudar o mundo conforme o coração. Tua pressa não apressa a história. Melhor que teu heroísmo é tua disciplina na multidão.
Terceiro:
É preciso trabalhar todo dia, Toda madrugada para mudar um pedaço de horta, uma paisagem, um homem.
Mas mudam, essa é a verdade.
 

2.5.17

Baudelaire e Guys: O pintor da vida Moderna

At the teather - Guys
Charles Baudelaire escreveu um ensaio chamado “O pintor da vida Moderna” iniciado em 1863, sendo concluído em 1868 sob o título de L’Art Romantique. Baudelaire analise a figura do pintor na vida moderna e sua relação com vários setores e pessoas que estão ligadas a arte.
No inicio da obra o autor expõe uma crítica em relação as pessoas que valorizam mais as obras de arte clássicas do que aquelas produzidas por artistas menores. Salienta a importância da moda e da sua contextualização para compreendermos o passado e o presente, pois segundo Baudelaire “o passado é interessante não só pela beleza que dele souberam extrair os artistas para os quais ele era o presente, mas igualmente como passado, por seu valor histórico”. Nesse trecho Baudelaire explana que as vestimentas antigas que provocam risos e espanto carregam valores de uma determinada época. Ao longo da reflexão sobre o “artista” e o “homem do mundo”, o poeta francês utiliza como exemplo um amigo que é Constatin Guys – pintor e desenhista (1805-1892), que conhece muito o mundo da moda. Para Baudelaire, C. G é um típico “homem do Mundo”, pois ele não é somente um artista é um individuo que possui interesse pelo mundo inteiro, que deseja saber, entender e conhecer. Enquanto o “artista” vive no mundo moral e político o “homem do mundo” é uma pessoa espiritual do universo. O “homem do mundo” esta sempre atento com os olhos de águia contemplando as pequenas mudanças, as coisas que parecem insignificantes. Um dos elementos que o “homem do mundo” busca é a modernidade. Esta caracteriza-se pelo transitório, efêmero, como aponta Baudelaire “a modernidade é metade da arte e a outra metade é o eterno e o imutável”. São os pequenos detalhes que o pintor da modernidade arrebata da multidão e tenta representar por meio de seus elementos.

A França, especialmente Paris estava passando por múltiplas transformações urbanas arquitetadas por Haussmann que mudaram profundamente o cotidiano das pessoas. Esse contexto de mudanças permite que Baudelaire escreva e reflita sobre a modernidade em Paris focalizando na arte. Para ele os pintores do século XIX deveriam ter o compromisso de retratar os elementos de seu tempo, ou seja, retratar as mudanças que estavam ocorrendo, a vida moderna. Por isso Baudelaire denomina Guys como “homem moderno”, pois, considera que em suas pinturas o artista contempla as paisagens da cidade (as carruagens, o andar das mulheres, as belas crianças, a limpeza reluzente dos lacaios, a destreza dos criados. Ele torna-se diferente de outras artistas para Baudelaire porque buscou a beleza passageira do presente.


27.4.17

Uma Mulher Chamada Guitarra
Vinicius de Moraes

Um dia, casualmente, eu disse a um amigo que a guitarra, ou violão, era "a música em forma de mulher". A frase o encantou e ele a andou espalhando como se ela constituísse o que os franceses chamam um mot d'esprit. Pesa-me ponderar que ela não quer ser nada disso; é, melhor, a pura verdade dos fatos.

0 violão é não só a música (com todas as suas possibilidades orquestrais latentes) em forma de mulher, como, de todos os instrumentos musicais que se inspiram na forma feminina - viola, violino, bandolim, violoncelo, contrabaixo - o único que representa a mulher ideal: nem grande, nem pequena; de pescoço alongado, ombros redondos e suaves, cintura fina e ancas plenas; cultivada, mas sem jactância; relutante em exibir-se, a não ser pela mão daquele a quem ama; atenta e obediente ao seu amado, mas sem perda de caráter e dignidade; e, na intimidade, terna, sábia e apaixonada. Há mulheres-violino, mulheres-violoncelo e até mulheres-contrabaixo.

Mas como recusam-se a estabelecer aquela íntima relação que o violão oferece; como negam-se a se deixar cantar, preferindo tornar-se objeto de solos ou partes orquestrais; como respondem mal ao contato dos dedos para se deixar vibrar, em benefício de agentes excitantes como arcos e palhetas, serão sempre preteridas, no final, pelas mulheres-violão, que um homem pode, sempre que quer, ter carinhosamente em seus braços e com ela passar horas de maravilhoso isolamento, sem necessidade, seja de tê-la em posições pouco cristãs, como acontece com os violoncelos, seja de estar obrigatoriamente de pé diante delas, como se dá com os contrabaixos.

Mesmo uma mulher-bandolim (vale dizer: um bandolim), se não encontrar um Jacob pela frente, está roubada. Sua voz é por demais estrídula para que se a suporte além de meia hora. E é nisso que a guitarra, ou violão (vale dizer: a mulher-violão), leva todas as vantagens. Nas mãos de um Segovia, de um Barrios, de um Sanz de la Mazza, de um Bonfá, de um Baden Powell, pode brilhar tão bem em sociedade quanto um violino nas mãos de um Oistrakh ou um violoncelo nas mãos de um Casals. Enquanto que aqueles instrumentos dificilmente poderão atingir a pungência ou a bossa peculiares que um violão pode ter, quer tocado canhestramente por um Jayme Ovalle ou um Manuel Bandeira, quer "passado na cara" por um João Gilberto ou mesmo o crioulo Zé-com-Fome, da Favela do Esqueleto.

Divino, delicioso instrumento que se casa tão bem com o amor e tudo o que, nos instantes mais belos da natureza, induz ao maravilhoso abandono! E não é à toa que um dos seus mais antigos ascendentes se chama viola d'amore, como a prenunciar o doce fenômeno de tantos corações diariamente feridos pelo melodioso acento de suas cordas... Até na maneira de ser tocado — contra o peito — lembra a mulher que se aninha nos braços do seu amado e, sem dizer-lhe nada, parece suplicar com beijos e carinhos que ele a tome toda, faça-a vibrar no mais fundo de si mesma, e a ame acima de tudo, pois do contrário ela não poderá ser nunca totalmente sua.

Ponha-se num céu alto uma Lua tranquila. Pede ela um contrabaixo? Nunca! Um violoncelo? Talvez, mas só se por trás dele houvesse um Casals. Um bandolim? Nem por sombra! Um bandolim, com seus tremolos, lhe perturbaria o luminoso êxtase. E o que pede então (direis) uma Lua tranquila num céu alto? E eu vos responderei; um violão. Pois dentre os instrumentos musicais criados pela mão do homem, só o violão é capaz de ouvir e de entender a Lua.

Texto extraído do livro "Para Viver um Grande Amor", José Olympio Editora - Rio de Janeiro, 1984, pág. 14.

23.4.17

Aniversário de vida e morte de Shakespeare

  Em 23 de abril de 1564 nascia o famoso dramaturgo inglês William Shakespeare. Nesse mesmo dia, 52 anos depois, em 1616, Shakespeare morria em Stratford. O autor produziu cerca de 38 peças, 158 sonetos e diversos outros poemas, além de ser creditado pelo Oxford English Dictionary por introduzir quase 3,000 palavras na língua inglesa. Os textos de Shakespeare podem ser analisados por variados vieses, para tratar diferentes temas. No entanto, o bardo nem sempre trabalhou sozinho, ele fez algumas colaborações com autores contemporâneos, como John Fletcher, Thomas Middleton e George Wilkins. Há também, estudiosos que afirmam que Shakespeare não escrever todos os textos que são atribuídos a ele, porém devido à inexistência de direitos autorais na época (e à própria incerteza da História em geral) é impossível obter alguma verdade absoluta. Mesmo com tantas controvérsias e polêmicas em torno do autor, devido à grande riqueza poética, uso da linguagem e profundidade filosófica sua obra ainda é lida, estudada, e serve como base e inspiração para produções contemporâneas mais de 400 anos depois de suas publicações originais, a exemplo dos vários filmes baseados em peças shakespeareanas com títulos homônimos, é também possível citar algumas de suas releituras mais famosas, o filme 10 coisas que odeio em você (1999), estrelado por Heath Ledger e Julia Stiles, baseado na comédia  A Megera Domada; Ela é o cara (2006) releitura de Noite de Reis (Twelfth Night). Foram produzidas versões das peças do bardo em histórias em quadrinho, animações japonesas e diversas outras mídias, para transpor as obras do cânone em meios acessíveis para todos.


Versão quadrinizada de Macbeth vendida pela editora Saraiva.

Pôster original do filme 10 coisa que odeio em você (1999).

E por fim, apenas para descontrair, uma versão em rap, da clássica tragédia Hamlet.
https://www.youtube.com/watch?v=qjMKBCyf2pQ



11.4.17

Língua – Vidas em Português

      O documentário Língua – Vidas em Português traz as diversas maneiras em que o Português é falado ao redor do mundo. Conta com participação de grandes pessoas como João Ubaldo Ribeiro, José Saramago, Matinho da Vila e, mostra relatos de pessoas de países não falantes do Português como Macau na China, Goa na Índia, e de países falantes de Português como Brasil, Portugal, Moçambique. 
      O Português é falado de diversas maneiras em todos os países. Percebemos a variação diatópica, quando o padeiro Rosário Macário falante do Português em Goa fala “prefer” e o falante de Português no Brasil fala “prefiro”. Assim, como o sotaque do Dinho falante do Português em Moçambique se difere com o Sotaque de qualquer brasileiro. Por isso, José Saramago diz: “Não há uma língua portuguesa: há línguas em português”.
      Como diz Castilho (2010, p.198), “de todas as variedades do português, a variedade geográfica é a mais perceptível.” Percebemos bastante isso no documentário, pois como foi gravado em vários países, há uma grande variedade geográfica, como por exemplo, a fala do cantor brasileiro vai ser diferente da fala da cantora portuguesa.
      A variação diastrática é perceptível ao compararmos a maneira em que José Saramago, escritor ilustre de Portugal, fala com a maneira que Dinho, o menino que mora no Hotel, fala. Pois, Saramago usa a norma padrão em sua fala, já o Dinho usa  a maneira descritiva.
      O documentário é indicado para quem deseja ter novos conhecimentos sobre as diversas maneiras que nossa língua é falada em países tão diferentes do nosso. Esse documentário se torna ainda mais interessante por filmar pessoas no seu dia-a-dia. Portanto, recomenda-se não apenas para acadêmicos de Letras, mas como para qualquer pessoa falante do Português e que tenha curiosidade de saber como ele é falado nos outros países. Assim, este filme contribui na ampliação de nossos conhecimentos sobre variações linguísticas e também sobre outras culturas, pois, muitas vezes, nos prendemos em que o português é apenas falado no Brasil e em Portugal.

LOPES, Victor; PERREIRA, Renato; WELLER, Suely; MARINHO, Rômulo;. Língua: Vidas em Português. Produção de Renato Pereira e Suely Weller, direção de Victor Lopes e Rômulo Marinho. Brasil/Portugal, Paris Filmes Lk Tel. 2002. DVD ou disponível em    https://www.youtube.com/watch?v=sTVgNi8FFFM, 105 min. Longa metragem. Som direto.

25.1.17

A evolução do dinheiro

    Como você já sabe, hoje em dia pra comprar alguma coisa, pagar alguma conta, você precisa ter dinheiro. São sete notas que representam os valores: um real, dois reais, cinco reais, dez reais, 20 reais, 50 reais e 100 reais. Cada mercadoria tem um valor que você pode comprar com uma dessas notas, ou com a junção de várias delas. Mas você sabe quando o dinheiro de papel começou a existir? 
    Pra explicar isso, vamos voltar no tempo, logo depois que os colonizadores chegaram ao país. Naquela época, as pessoas produziam alguns produtos, separavam uma parte para consumir, e o restante trocava por outros produtos. Por exemplo, na minha terra eu produzo vários tipos de alimentos, verduras, frutas e legumes. Mas como não crio nenhum animal, não planto arroz, batata e nem algodão, então preciso procurar alguém que produza isso e que queira trocar pelos produtos que eu tenho. Essa troca é chamada de escambo, e embora pareça coisa que só acontece no passado, na verdade não. Hoje em dia ela ainda acontece, algumas pessoas fazem essa troca através dos classificados do jornal e das redes sociais, e isso também se chama escambo. Mas vamos voltar a historia.
    Com o passar do tempo, as trocas começaram a evoluírem, algumas mercadorias passaram a ser mais valorizadas e se transformaram em moedas-mercadoria, como foi o caso do bambu na China, fios na Arábia, e do sal na Roma Antiga. Mas com essa forma de escambo ainda não era possível guardar a sua riqueza, já que os alimentos eram perecíveis. A descoberta do metal no século VII a.C. veio para facilitar acabar com esse problema e facilitar a vida das pessoas.
    As primeiras moedas criadas eram de ouro, prata e cobre, elas tinham vários formatos, e eram fabricadas manualmente. Foi com o tempo que ganharam uma forma padrão e desenhos como os que encontramos nas moedas de hoje.
    Foi na idade média, período do século V (cinco) ao século XV (quinze), que surgiu a ideia de guardar as moedas, por causa da dificuldade de transporte, e usar um comprovante em papel com o valor que a pessoa possuía. Funcionava assim: você entregava o dinheiro para os ourives, pessoas que faziam e vendiam objetos de ouro e prata. Eles contavam e anotavam num recibo o valor da quantia guardada, aí você usava o comprovantes para realizar suas compras. Já no século XVII surgiu o primeiro banco, localizado na Inglaterra, onde as pessoas levavam suas moedas e produtos e trocavam por recibos, como já faziam com os ourives. As moedas de papel, como eram chamados os comprovantes também foram evoluindo, e no começo do século XIX possuíam os valores fixos nas notas (assim como é hoje), para evitar alterações dos valores nos recibos.
    No Brasil essa evolução do dinheiro também aconteceu. Nosso país sempre foi rico em produção de diversos produtos como, por exemplo, a produção de algodão, soja e açúcar. Por causa disso, o sistema de troca ou escambo como vimos agora pouco, permaneceu por muito tempo em nosso país. As primeiras moedas brasileiras surgiram há 371 anos, ou seja, em 1645.
 Mudanças para controlar a inflação

    Para facilitar o acesso ao dinheiro, vários bancos foram instalados em várias cidades, mas com tantos bancos entregando papéis com valores sem controle, a crise financeira surgiu, não só no Brasil, mas no mundo inteiro. Para resolver esse problema, era necessário ter o controle do dinheiro que circulava em cada país. Afinal, a quantidade de dinheiro deve ser igual à quantidade de serviços e produtos oferecidos pela economia. Foi assim que cada país criou um órgão responsável para fazer esse controle. No Brasil esse órgão chama-se Banco Central e foi criado em 1964, pelo rei de Portugal, Dom Pedro II.
    Mas não foi nada fácil para o país dar fim a crise econômica. O país tinha em circulação mais dinheiro do que a quantidade de serviços e produtos. Vamos te explicar melhor. Se eu tenho cinco cadernos iguais não posso trocar por oito vales caderno, porque depois não posso oferecer os outros três cadernos que faltam, certo? Para o dinheiro é a mesma coisa, se o país produz produtos e fornece serviços que valem, por exemplo, R$1.000.000 ele não pode imprimir R$1.500.000 de dinheiro, porque não tem produtos e serviços para oferecer.

    Por isso, o país não pode tentar resolver uma crise colocando mais dinheiro em circulação. Se isso acontece, o país tem que aumentar o preço das mercadorias para recuperar o dinheiro impresso indevidamente e isso se chama inflação. Mas então porque ainda continuam fabricando novas cédulas? As notas continuam sendo impressas para substituir as notas velhas, que com o tempo acabam rasgando ou ficando ilegíveis. E se você tem uma nota dessas velhas e rasgadas em casa, basta levar ao banco e trocá-la por outra, do mesmo valor. 

 
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